Política

Direita leva as duas vagas de São Paulo no Senado com Derrite e André do Prado

Dupla apoiada por Tarcísio de Freitas somou 60% dos votos e derrotou Marina Silva e Simone Tebet, ligadas à chapa de Lula e Haddad
Guilherme Derrite, um dos senadores eleitos São Paulo 2026, discursa com o Senado Federal ao fundo

São Paulo entregou ao campo conservador as duas cadeiras em disputa no Senado. Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL) foram eleitos senadores pelo estado neste domingo (4), em resultado divulgado pelo Tribunal Regional Eleitoral às 19h30.

Com 90% das urnas apuradas, Derrite aparecia com 30,69% dos votos (11.963.823) e Prado, com 29,35% (11.440.297). Simone Tebet (PSB) ficou em terceiro, com 19,14% (7.461.218), e Marina Silva (Rede) em quarto, com 18,04% (7.031.302).

Duas chapas, dois projetos para o Congresso

Eleitos, Derrite e Prado assumem mandato a partir de 2027 nas vagas hoje ocupadas por Giordano (Podemos), suplente do senador Major Olímpio, morto em março de 2021, e por Mara Gabrilli (PSD) — ambos optaram por não concorrer à reeleição. O terceiro senador da bancada paulista, Marcos Pontes, não esteve na disputa e tem mandato até 2031.

A corrida pelas vagas paulistas no Senado foi uma das mais apertadas do pleito e se organizou em dois blocos desde o início da campanha. Derrite e Prado tiveram o apoio do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e do senador Flávio Bolsonaro (PL), com a promessa de reforçar uma bancada crítica ao Palácio do Planalto.

Do outro lado, as ex-ministras Marina Silva e Simone Tebet compuseram a chapa do presidente Lula (PT) e do ex-ministro Fernando Haddad (PT), apostando no discurso de reconstrução da base governista no Congresso.

Com 54 cadeiras em disputa nesta eleição, a renovação do Senado ganhou dimensão nacional. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que o campo governista precisa garantir maioria na Casa sob o risco de a composição “avacalhar” o Supremo Tribunal Federal, enquanto o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) disse, em junho de 2025, que um Senado mais alinhado ao seu grupo “mandará mais que o Planalto”. A disputa por maioria também é associada à possibilidade de abertura de processos de impeachment contra ministros do STF — prerrogativa da Casa —, tema que o atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), já afirmou que não vai pautar.

Pesquisas apontaram para lados diferentes

Os institutos não convergiram ao longo da campanha. Nos cinco levantamentos da Quaest encomendados pela Globo, Derrite liderou quatro, com índices entre 12% e 25%; a exceção foi a rodada de 8 de setembro, quando Marina apareceu à frente.

No Datafolha, o quadro se invertia: Marina liderou três das quatro pesquisas, e Derrite só chegou ao topo no levantamento divulgado no sábado (3), véspera da votação.

O contraste com a corrida ao Palácio dos Bandeirantes ficou evidente. Enquanto Tarcísio liderou com folga do começo ao fim, o Senado seguiu indefinido até os últimos dias. No primeiro debate com candidatos ao Senado promovido pelo g1, Derrite e Prado chegaram a confirmar presença, mas desistiram horas antes; participaram Marina, Tebet, Geraldo Rufino (Podemos) e Soninha Francine (Cidadania).

O racha na direita e a desistência de Salles

O caminho dos vencedores não foi tranquilo dentro do próprio campo. O racha já era visível desde agosto, quando a candidatura independente de Ricardo Salles (Novo) dividiu a direita paulista e colocou o ex-ministro em rota de colisão com Derrite e Prado.

Salles concentrou os ataques em Prado, presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, chamando-o de “filhote”, “cria” e “pupilo” de Valdemar Costa Neto e afirmando que o adversário representava o “Centrão”, não a direita. A ofensiva virou processo: em agosto, o TRE-SP aplicou multa de R$ 10 mil por propaganda antecipada e conteúdo depreciativo; em setembro, determinou a retirada de vídeos e impôs nova multa, de R$ 5 mil, por divulgação de informação considerada falsa.

Seis dias antes da eleição, Salles abandonou a disputa e declarou apoio justamente a Derrite e Prado, sustentando que divergências internas precisavam ceder diante do risco de uma nova vitória nacional de Lula.

A origem das candidatas como argumento de campanha

Marina, nascida no Acre, e Tebet, de Mato Grosso do Sul, foram alvo recorrente da acusação de não ter raízes políticas paulistas, um aceno ao sentimento regionalista de parte do eleitorado. Aliados das ex-ministras rebatiam lembrando que Tarcísio, principal cabo eleitoral dos eleitos, nasceu no Rio de Janeiro e construiu a carreira em São Paulo.

A trajetória de André do Prado até o Senado

Natural de Guararema, no Alto Tietê, André do Prado tem 57 anos e mais de três décadas de carreira política, sempre filiado ao PL de Valdemar Costa Neto, seu padrinho político — o mesmo que Salles usou como mote das críticas durante a campanha. Desde a década de 1990, foi vereador por dois mandatos, presidente da Câmara Municipal, vice-prefeito e prefeito de Guararema, cargo que ocupou entre 2005 e 2008.

Em 2010, a convite da direção do PL para reorganizar a estrutura do partido em São Paulo, elegeu-se deputado estadual com 86.346 votos — à época, o único representante da legenda na Assembleia Legislativa. Foi reeleito em 2014, 2018 e 2022, quando obteve 216.268 votos e chegou ao quarto mandato consecutivo. Ganhou maior projeção a partir de 2023, quando assumiu a presidência da Alesp já na gestão Tarcísio e conduziu na Casa votações de propostas centrais do governo estadual, entre elas a privatização da Sabesp.

Durante os 45 dias de campanha, Prado percorreu cidades do interior, da Região Metropolitana e do litoral paulista acompanhado de prefeitos, vereadores e lideranças do PL. Neste domingo, votou em Guararema, na Escola Estadual Ivan Brasil, onde estudou e também lecionou. Em depoimento ao g1, afirmou estar com o “coração em paz” e disse ter cumprido o objetivo de apresentar suas propostas aos eleitores.