A candidatura independente de Ricardo Salles (Novo) ao Senado por São Paulo tem dividido a direita paulista. Fora da chapa de reeleição do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), o ex-ministro do Meio Ambiente mira o presidente da Alesp, André do Prado (PL).
Salles diz que o rival não é tão bolsonarista quanto alega, numa disputa que ecoa a pesquisa Quaest: os dois aparecem tecnicamente empatados na corrida pelo Senado, atrás da chapa liderada por Fernando Haddad (PT), com Marina Silva e Simone Tebet.
Convenção expõe o descompasso na chapa de Tarcísio
Na convenção estadual do PL, em 20 de julho, o deputado federal Guilherme Derrite evitou atacar Salles e disse não vê-lo como adversário: “Se tivéssemos só dois candidatos da direita, teríamos mais chance de fazer as duas cadeiras. Agora, ele tem o direito de concorrer.” André do Prado, por sua vez, respondeu com desconforto que caberia a Salles lidar com a própria candidatura, já que ele e Derrite foram os escolhidos por Tarcísio e pela família Bolsonaro.
Chamou atenção a ausência de Prado durante os discursos de Tarcísio e do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL), que citaram nominalmente os dois candidatos ao Senado. Segundo a assessoria do presidente da Alesp, ele havia deixado o evento para prestigiar, em Osasco, o lançamento da pré-candidatura de Rogério Lins (Podemos) a deputado estadual. Como já mostrou o Tropiquim, a convenção que homologou Prado ao Senado já havia sido marcada pelo silêncio do PL sobre a chapa de Tarcísio na ata oficial — sinal precoce do descompasso que Salles agora explora nos discursos de campanha.
Cinco dias depois, na convenção que lançou Flávio Bolsonaro à Presidência, o discurso de Prado foi um dos que menos empolgaram militantes. Um apoiador com camiseta estampada com o rosto de Jair Bolsonaro reagiu com desdém e disse que votaria em Derrite e Salles. No debate da Band para o governo paulista, no domingo (9), Derrite ficou na plateia ao lado do prefeito Ricardo Nunes (MDB), enquanto Prado permanecia em outro ponto do estúdio.
Disputa chega à Justiça Eleitoral
O embate entre os dois candidatos já resultou em ações no Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo. Em representação movida pelo PL, o TRE-SP condenou Salles a pagar R$ 10 mil em multa por impulsionar no Instagram um vídeo contra Prado, sob acusação de uso de imagens manipuladas e propaganda eleitoral negativa irregular durante a pré-campanha — decisão da qual ainda cabe recurso. Em outra representação, movida pelo próprio Prado, a acusação é de que um perfil apoiador de Salles publicou conteúdo para desestimular o voto no presidente da Alesp; Salles nega conhecer o autor do perfil.
O Ministério Público Eleitoral também pediu, no início do mês, a impugnação da candidatura de Salles por pendências documentais ligadas a um processo sobre motociata com Jair Bolsonaro em 2022. Ao rebater a ação em vídeo, Salles aproveitou para provocar o rival, questionando seu bolsonarismo por não tê-lo visto na motociata. Sobre a multa aplicada pelo TRE-SP, o ex-ministro disse ter recorrido “justamente porque o que publicamos nada mais é do que a verdade: Prado é centrão raiz, cria do Valdemar da Costa Neto” — mesma articulação que, como o Tropiquim mostrou, já condicionou até a filiação de Tarcísio ao partido em 2025.