Meio ambiente

Europa Ocidental viveu o verão mais quente já registrado, com rios secos e incêndios

Média de 21,7°C entre junho e agosto superou o recorde de 2003 e deixou 52% do continente sob estresse térmico
Mapa da Europa em tons avermelhados ilustra o verão mais quente Europa já registrou, com calor extremo e secas.

A Europa Ocidental fechou o verão de 2026 com a temperatura média mais alta já medida na região: 21,7°C entre junho e agosto, 2,5°C acima da média de 1991 a 2020 e à frente do recorde anterior, de 2003. Os dados são do observatório europeu Copernicus.

O calor não veio sozinho. Ondas de calor que começaram ainda em maio se somaram a seca generalizada, rios em níveis mínimos históricos e incêndios florestais que consumiram quase o dobro da área média na União Europeia. Em todo o continente, foi o terceiro verão mais quente da série.

Um calor mais amplo e mais duradouro

O recorde não se explica apenas pelo pico do termômetro, mas pela extensão do calor no mapa e no calendário. Em 2026 houve 17 dias em que pelo menos 60% da Europa Ocidental passou dos 30°C — foram 11 dias em 2003 e apenas sete em 2025.

O efeito sobre o corpo humano acompanhou a escalada. Até o fim do verão, 52% da Europa havia enfrentado pelo menos condições de estresse térmico classificadas como “muito fortes”, associadas a temperaturas percebidas de 38°C ou mais. Na porção ocidental, a média foi de 41 dias sob estresse térmico forte, cinco a mais que em 2003, e 13 dias no patamar muito forte — ambos recordes.

A temporada já vinha dando sinais: agosto de 2026 entrou na história como o mês mais quente já registrado no planeta, com incêndios de Portugal à Grécia e mais de 10 mil mortes em excesso na Europa, segundo a rede EuroMOMO.

Rios no limite

A seca prolongada rebaixou os principais cursos de água do continente. O verão teve os menores fluxos desde 1992, início da série histórica, com mínimas recordes ou próximas disso observadas ao mesmo tempo no Reno, Danúbio, Pó, Loire, Ródano e Sena, sobretudo em julho e agosto.

A consequência foi em cadeia: transporte de cargas comprometido e pressão sobre irrigação, abastecimento, geração hidrelétrica e até o resfriamento de reatores nucleares. Um estudo do World Weather Attribution publicado em julho já havia apontado o motor dessa seca: não a falta de chuva, mas o calor extremo, que faz a atmosfera puxar mais umidade do solo e das plantas.

Fogo, fumaça e mares quentes

Até 2 de setembro, a área queimada na União Europeia era quase duas vezes a média registrada entre 2006 e 2025 para o mesmo período, segundo o Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais. Espanha e França estiveram entre os países mais atingidos.

As emissões geradas pelo fogo ficaram entre as dez maiores desde 2003, de acordo com o Serviço de Monitoramento da Atmosfera do Copernicus, expondo milhões de pessoas a níveis perigosos de poluição do ar.

O oceano também bateu recordes

Boa parte da costa atlântica europeia e as porções oeste e central do Mediterrâneo registraram temperaturas recordes ou próximas de recordes na superfície, acompanhadas de ondas de calor marinhas fortes a excepcionais. Mares mais quentes dificultam o resfriamento durante a noite e elevam a umidade do ar perto da costa, o que agrava o estresse térmico de quem vive no litoral.

Para Burgess, o retrato do verão mostra extremos que se somam: “À medida que o clima continua aquecendo, eventos como esses reforçam a importância de aumentar a resiliência diante de riscos climáticos cada vez mais interligados”, afirmou. O alerta atravessa o Atlântico: os recordes europeus de junho já expunham o despreparo do Brasil, na temporada em que o Reino Unido viveu seu dia mais quente e a França chegou a 44,3°C.