Saúde

FDA aprova novo remédio para Parkinson, e Brasil fica sem data para o tratamento

Tavapadon mira receptores cerebrais nunca explorados por essa classe, mas o ganho de movimento repete o de opções já em uso
Sede da Anvisa com bandeira do Brasil ao fundo, simbolizando a espera por novo remédio para Parkinson no país.

O novo remédio para Parkinson aprovado nos Estados Unidos chega às farmácias americanas em outubro — e sem previsão de desembarcar no Brasil.

A Food and Drug Administration (FDA) autorizou na segunda-feira (28) o tavapadon, comprimido de dose única diária para adultos com a doença, vendido como Juvmo pela AbbVie e indicado sozinho ou em combinação com a levodopa.

A doença atinge mais de 11 milhões de pessoas no mundo. Por aqui, não há previsão de registro na Anvisa.

A fechadura que ninguém havia aberto

A dopamina comanda o movimento ao se encaixar em receptores no cérebro, e existem cinco tipos deles. Os remédios que imitam a substância, como o pramipexol e a rotigotina, usados no Brasil, atuam sobretudo nos receptores D2 e D3 — os mesmos ligados à sensação de recompensa e ao sono.

Daí vem o problema que faz tanta gente abandonar o tratamento: sonolência, alucinações e compulsões por jogo ou compras. O tavapadon aposta em outro endereço, os receptores D1 e D5, associados ao disparo do movimento e com pouca relação com esses efeitos.

O principal estudo de fase 3, publicado em maio na JAMA Neurology, acompanhou 507 pacientes que já tomavam levodopa e passavam, em média, cinco horas e meia por dia em estado “off”, quando os sintomas voltam. Em 26 semanas, quem recebeu tavapadon ganhou 1,7 hora diária de boa mobilidade, contra 0,6 hora no placebo — diferença de 1,1 hora. O tempo de sintomas caiu quase duas horas por dia, o dobro da redução no grupo placebo.

Uma hora a mais soa modesto no papel, mas pode significar vestir-se sozinho, sair de casa ou trabalhar por mais tempo, todos os dias. O detalhe que os especialistas ouvidos pelo g1 fazem questão de sublinhar é que esse ganho está na mesma ordem de grandeza do obtido com os adjuvantes da levodopa já disponíveis. A promessa do tavapadon não é mover mais horas: é ser melhor tolerado — e isso os estudos ainda não demonstraram.

A busca por alternativas também corre no Brasil: meses antes, a Anvisa aprovou o Vyalev, infusão contínua de levodopa voltada a reduzir os períodos “off” do Parkinson avançado.

O que vigiar nas primeiras semanas

O comprimido não é inofensivo. No estudo, 71,7% dos pacientes tratados relataram algum efeito adverso, contra 55,1% no placebo — enjoo, movimentos involuntários e tontura foram os mais comuns, em geral leves ou moderados. Cerca de 17% desistiram do tratamento por causa deles, quase o dobro do grupo placebo.

A pressão arterial é o ponto mais sensível, já que a maioria dos pacientes é idosa. Em pé, a pressão caiu em média 8,6 mmHg entre os tratados, e 6% tiveram queda ao levantar, contra 1,2% no placebo. A recomendação é revisar os medicamentos para pressão antes de começar, medir o paciente deitado e em pé nas primeiras semanas e perguntar ativamente por tontura, visão escurecida e quedas.

Sobre as compulsões, o grande motivo de abandono dos remédios atuais, o resultado anima sem fechar a conta: 2,4% entre os tratados contra 1,2% no placebo, diferença que os autores não consideram relevante. Esses comportamentos, porém, podem aparecer meses ou anos depois — só o uso prolongado dirá se o risco é de fato menor. E nenhum ensaio comparou o tavapadon diretamente com os concorrentes, o que impede afirmar que ele seja mais seguro.

O limite de fundo é outro: o remédio ajuda os neurônios sobreviventes a aproveitar melhor a dopamina disponível, mas não impede que eles morram. Enquanto isso, a frente mais ambiciosa da pesquisa tenta repor as células perdidas — o Japão já aprovou uma terapia com células-tronco iPS para Parkinson. Por ora, o tavapadon é descrito como a opção mais promissora para controlar sintomas. O uso em larga escala nos próximos anos dirá se o alvo inédito vira vantagem real ou apenas mais uma linha na lista.