O Rio de Janeiro está entre as cidades do mundo com maior exposição ao ozônio nocivo em 2026, segundo análise global de qualidade do ar divulgada pelo serviço de monitoramento da atmosfera do observatório europeu Copernicus.
A capital fluminense apareceu na faixa classificada como extremamente ruim — acima de 110 microgramas por metro cúbico —, o extremo oposto da média sul-americana, que ficou entre as menos desfavoráveis do levantamento.
Quase 40% da população mundial foi exposta a níveis extremamente altos do poluente ao longo do ano. No indicador de longo prazo, apenas 5% respirou o que o serviço europeu classifica como ar bom, e outros 15% ficaram na faixa razoável. A Ásia concentrou o pior cenário: cerca de 60% dos moradores do continente na categoria mais alta.
A América do Sul funciona como contraponto: 31% da população em níveis bons e 50% em razoáveis, somando 81% nas duas melhores faixas. A média continental, porém, não descreve o Rio — e o relatório é explícito sobre o que faz uma cidade divergir da região em que está: emissões locais, circulação do ar, temperatura, intensidade da radiação solar e poluentes trazidos de outros lugares.
O poluente que não sai de escapamento
O ozônio em questão não é o da camada que protege a Terra da radiação ultravioleta, nas partes altas da atmosfera. Perto do solo, o gás é um poluente prejudicial à saúde — e invisível, ao contrário do material particulado.
Ele também não é emitido direto por chaminés ou motores: forma-se em reações químicas entre óxidos de nitrogênio, liberados sobretudo pela queima de combustíveis fósseis, e compostos orgânicos voláteis, que vêm tanto da atividade humana quanto da vegetação e dos incêndios. O gatilho é o clima. Sol forte e temperatura elevada aceleram essas reações, razão pela qual calor extremo virou também um problema de qualidade do ar. Na Europa, ondas de calor no verão empurraram as concentrações para cima, mesmo com a queda de dióxido de nitrogênio e dióxido de enxofre nas últimas décadas.
A Organização Mundial da Saúde associa a poluição atmosférica a doenças cardiovasculares e respiratórias, câncer de pulmão e outros agravos, e calcula que 99% da população mundial viva onde o ar ultrapassa suas recomendações. No Brasil, entre 2019 e 2021, mais de 300 mil mortes por doenças respiratórias foram associadas à poluição do ar, segundo o Ministério da Saúde.
Fronteira não segura fumaça nem poeira
A análise integra o Atmosphere Watch, levantamento que cruza dados de satélites, estações em solo, aeronaves e outras fontes. Ele também rastreou a fumaça de incêndios florestais em 2026 e chegou a um resultado incômodo: as emissões globais da queima de vegetação caíram nas últimas décadas, mas a exposição das pessoas à fumaça aumentou, em parte porque eventos extremos ocorrem mais perto de áreas povoadas.
Na América do Sul, as emissões por incêndios ficaram abaixo das de muitos anos recentes. O efeito local, ainda assim, pode ser severo: dias antes, a fumaça de queimadas deixou Manaus com o pior ar do mundo, à frente de Kinshasa, no Congo.
No Hemisfério Norte o quadro foi outro. Grandes incêndios no Canadá espalharam plumas por milhares de quilômetros, alcançaram cidades dos Estados Unidos, cruzaram o Atlântico em direção à Europa e chegaram à Groenlândia e ao Oceano Ártico. No Sudeste Asiático, o início do El Niño deixou a Indonésia mais quente e seca e elevou as emissões no segundo semestre.
A poeira dos desertos completa a conta. Cerca de 2 bilhões de toneladas de areia e poeira sobem à atmosfera todos os anos, segundo a Organização Meteorológica Mundial, e em 2026 episódios de poeira do Saara atravessaram o Atlântico até o Caribe e atingiram partes da Europa. Um estudo publicado na Nature projeta até 1,4 milhão de mortes anuais até 2100 ligadas à fumaça de queimadas, poluente que, como o ozônio, percorre milhares de quilômetros antes de ser respirado.