Um estudo recente prevê que a fumaça das queimadas poderá ser responsável por até 1,4 milhão de mortes por ano até 2100. O levantamento destaca os impactos graves da poluição do ar causada por incêndios florestais, com efeitos diretos sobre a saúde humana em todo o mundo.
Pesquisas publicadas na revista Nature estimam 70 mil mortes extras anuais nos EUA até 2050, ampliando o alerta para o cenário global.
Impactos dos poluentes liberados pelas queimadas
A fumaça proveniente das queimadas contém uma mistura de poluentes perigosos, como monóxido de carbono (CO), compostos orgânicos voláteis (COVs), óxidos de nitrogênio (NOx), ozônio, metais pesados e material particulado fino (PM2.5). O CO é um gás inodoro e tóxico, resultante da queima incompleta de madeira, carvão e combustíveis. Ao ser inalado, ele impede o transporte de oxigênio pelo sangue, podendo causar desde sintomas leves, como dor de cabeça e náusea, até consequências mais graves, como intoxicações agudas e exacerbação de doenças crônicas, segundo a pneumologista Margareth Dalcomo.
O material particulado PM2.5 é especialmente perigoso por penetrar profundamente nos pulmões, provocando inflamação generalizada. Conforme Frederico Fernandes, presidente da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia (SPPT), esse processo pode desencadear doenças cardiovasculares, como arritmias, infarto e derrame, além de agravar asma, bronquite e aumentar o risco de câncer e diabetes.
Os COVs, presentes em grandes quantidades durante incêndios, elevam o risco de câncer e prejudicam rins, fígado e sistema nervoso. Fernandes alerta para o desenvolvimento de doenças pulmonares graves, como pneumonia de hipersensibilidade, devido à exposição crônica a esses compostos.
Óxidos de nitrogênio e ozônio também contribuem para crises de asma, tosse e falta de ar, principalmente em crianças. O ozônio pode agravar quadros de bronquite e aumentar o risco de pneumonia. Metais pesados, como chumbo e mercúrio, mesmo em pequenas quantidades, comprometem órgãos vitais e podem ser cancerígenos, além de causar inflamação sistêmica e aumentar o risco de doenças cardiovasculares e respiratórias crônicas.
Consequências globais e recomendações
O serviço de saúde britânico NHS alerta para os efeitos prolongados da exposição ao monóxido de carbono, que pode afetar a memória e agravar condições cardíacas, sendo crianças, grávidas e pessoas com doenças respiratórias os grupos mais vulneráveis. Em ambientes fechados, a concentração de COVs pode ser até dez vezes maior, aumentando o risco de irritações e infecções.
Estudos indicam que o avanço do aquecimento global tende a aumentar a frequência e intensidade dos incêndios florestais, o que pode elevar significativamente o número de mortes relacionadas à inalação da fumaça nas próximas décadas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que a concentração anual média de PM2.5 não ultrapasse 5 microgramas por metro cúbico de ar, mas em episódios de fumaça intensa no Brasil, esse limite é frequentemente excedido.
O estudo reforça a necessidade de políticas públicas para conter o desmatamento e os incêndios, além de estratégias de proteção à saúde pública, especialmente em regiões mais afetadas pela poluição do ar.