Saúde

Estudo inédito aponta 120 mil mortes por calor no Brasil em 20 anos

Idosos concentram 80% das vítimas e pesquisadores cobram ação urgente do SUS
Fiocruz e Sistema de Saúde enfrentam mortes por onda de calor no Brasil com urgência

Uma pesquisa inédita de Fiocruz e UFBA estima que ondas de calor causaram cerca de 120 mil mortes no Brasil entre 2000 e 2019 — uma média de 6 mil óbitos por ano que não teriam ocorrido sem os picos de temperatura.

Os idosos concentram 8 em cada 10 dessas mortes. Pessoas com menor renda e escolaridade também aparecem de forma desproporcional entre as vítimas, reforçando que o calor extremo mata seguindo as mesmas desigualdades históricas do país.

O levantamento analisou 19,8 milhões de óbitos por causas naturais registrados no DataSUS ao longo de duas décadas, em 5.566 municípios. Desse total, 119.643 mortes foram associadas às ondas de calor — 0,6% dos óbitos do período. O critério adotado considerou onda de calor quando a temperatura média ficou entre os 5% mais quentes por pelo menos dois dias consecutivos, tomando como referência o histórico climático de cada município.

As mortes cardiovasculares foram as mais numerosas em termos absolutos: 33.858 óbitos atribuíveis ao calor. As doenças respiratórias responderam por 24.225 mortes, mas com peso proporcional maior — 1% de todos os óbitos respiratórios do período, contra 0,53% dos cardiovasculares.

Um achado central inverteu a expectativa: durante as ondas de calor, as internações por causas cardíacas caíram em boa parte das regiões, mas as mortes aumentaram. A hipótese dos pesquisadores é que episódios mais intensos podem levar quadros graves a evoluir rapidamente, antes que o paciente chegue ao hospital — o que faz com que olhar apenas para internações subestime o impacto real do calor.

Desigualdades regionais e sociais

São Paulo registrou o maior número absoluto de mortes relacionadas ao calor: 30.813 óbitos, acompanhando o peso populacional do estado. Roraima teve o menor total, com 167. Mas quando a análise considera a proporção em relação aos óbitos locais, o Amapá aparece com os maiores índices — chegando a 1,77% nas mortes por doenças respiratórias.

O risco racial pode estar subestimado nos dados nacionais. No recorte geral, o risco apareceu maior entre pessoas brancas, mas os próprios autores atribuem isso a falhas no preenchimento de raça em municípios menores. Nas regiões metropolitanas, onde os registros são mais confiáveis, o risco entre pessoas pretas se iguala ou supera o observado entre brancas — indicando que as desigualdades raciais diante do calor são maiores do que os números mostram.

Para os pesquisadores, os resultados impõem uma conclusão prática: o calor extremo precisa entrar de forma explícita no planejamento da saúde pública. O estudo lista medidas concretas para o SUS — aprimorar sistemas de alerta precoce, treinar equipes para reconhecer os efeitos fisiológicos do calor, garantir acesso a espaços climatizados e priorizar idosos e moradores de áreas de risco em políticas públicas.

Sávio Raeder, supervisor do projeto Ciência&Clima e analista do MCTI, classificou o trabalho como “um alerta para a urgência dos impactos na saúde humana decorrentes das ondas de calor e a necessidade de priorização de grupos sociais e territórios na busca de soluções que preservem a vida”.

O problema está longe de ser exclusividade brasileira. A OMS estimou que ondas de calor mataram mais de 200 mil europeus em apenas quatro anos, em um continente que aquece mais rapidamente do que qualquer outra região do planeta. A vulnerabilidade dos mais pobres ao calor extremo também se repete em outras latitudes: na Índia, trabalhadores rurais e da construção foram forçados a reorganizar completamente suas rotinas para sobreviver a temperaturas de até 48°C, evidenciando que a desigualdade socioeconômica amplifica os efeitos mortais do calor em qualquer parte do mundo.

Na maior parte dos municípios brasileiros, as ondas de calor ficaram mais frequentes e mais intensas ao longo das duas décadas analisadas. Com as mudanças climáticas projetando cenários ainda mais severos, os autores alertam que ignorar esse risco no planejamento de saúde significa deixar os grupos mais vulneráveis desprotegidos diante de uma ameaça que só tende a crescer.

escrito com o apoio da inteligência artificial
este texto foi gerado por IA sob curadoria da equipe do Tropiquim.
todos os fatos foram verificados com rigor.
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