Economia

Governo fecha agosto com déficit de R$ 13,6 bilhões, menor rombo para o mês em cinco anos

Arrecadação cresceu quase o dobro do ritmo dos gastos, mas o acumulado do ano já soma R$ 94,9 bilhões no vermelho
Moedas de real simbolizam o déficit primário das contas públicas em agosto, no governo federal.

As contas públicas federais fecharam agosto com déficit primário de R$ 13,58 bilhões, segundo dados divulgados pelo Tesouro Nacional nesta terça-feira (29). É o melhor saldo para o mês em cinco anos.

O rombo encolheu porque a arrecadação correu mais rápido que o gasto: as receitas líquidas subiram 3,5% acima da inflação, para R$ 187,9 bilhões, enquanto as despesas avançaram 1,9% em termos reais, a R$ 201,5 bilhões.

Impostos, economia aquecida e petróleo sustentam a receita

Pelos números do Tesouro, o alívio de agosto vem do lado da arrecadação. A receita líquida — o que sobra depois das transferências constitucionais a estados e municípios — chegou a R$ 187,9 bilhões, em alta real de 3,5%.

Três fatores se somam nessa conta: o crescimento da economia brasileira, os aumentos de impostos anunciados nos últimos anos pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e as receitas decorrentes da alta do petróleo.

Do outro lado, os gastos seguiram subindo, ainda que mais devagar: R$ 201,5 bilhões no mês, 1,9% acima da inflação. A distância entre os dois ritmos é exatamente o que explica o melhor resultado mensal da série recente.

O desempenho também supera o do mesmo mês do ano passado, quando o déficit de agosto somou R$ 17,3 bilhões. É também o melhor agosto desde 2021, quando o déficit do mês havia ficado em R$ 11,8 bilhões, e ficou acima da mediana projetada pelo mercado: o Prisma Fiscal, levantamento do Ministério da Fazenda com analistas do setor, apontava um déficit de R$ 16 bilhões para o mês.

Por dentro do número, o Tesouro Nacional e o Banco Central juntos fecharam agosto com superávit conjunto de R$ 5 bilhões, enquanto a Previdência Social registrou déficit de R$ 18,6 bilhões — a soma dos dois resultados compõe o rombo total de R$ 13,58 bilhões do mês.

Vale lembrar o que o indicador mede: o resultado primário compara receitas de tributos e impostos com as despesas do governo, sem incluir os juros da dívida pública. Quando as receitas ficam abaixo dos gastos, há déficit; quando superam, superávit.

Acumulado do ano segue negativo e meta depende de exclusões

Nos oito primeiros meses de 2026, as contas do governo acumulam déficit primário de R$ 94,9 bilhões. A receita líquida somou R$ 1,67 trilhão no período, com alta real de 5,7%; as despesas totais chegaram a R$ 1,75 trilhão, com o mesmo avanço de 5,7% acima da inflação.

Em valores correntes, o rombo acumulado nos oito primeiros meses de 2026 é maior que o registrado no mesmo período de 2025, quando o déficit somava R$ 85,9 bilhões. Na composição do resultado do ano, o Tesouro Nacional e o Banco Central acumulam superávit conjunto de R$ 182,2 bilhões entre janeiro e agosto, enquanto a Previdência Social soma déficit de R$ 277 bilhões no período.

O quadro era bem diferente poucos meses antes: em maio, o rombo mensal havia chegado a R$ 53 bilhões — cenário que o saldo de agosto ajuda a amenizar.

A meta para o ano é um saldo positivo de 0,25% do PIB, cerca de R$ 34,3 bilhões. A regra em vigor, porém, permite ao governo retirar R$ 67,3 bilhões em despesas desse cálculo, recursos que podem ser usados para pagar precatórios, os gastos com sentenças judiciais.

O detalhamento oficial do resultado saiu no Relatório Resumido da Execução Orçamentária (RREO) do 4º bimestre, publicado pelo Tesouro Nacional no Diário Oficial da União nesta quarta-feira (30). Pelo relatório, as receitas primárias totais do governo somaram R$ 2,1 trilhões no acumulado do ano — 63,74% da previsão anual —, enquanto as despesas primárias totais chegaram a R$ 2,18 trilhões, 64,53% da dotação orçamentária atualizada. O documento também abre o resultado da Seguridade Social, que acumula déficit de R$ 293,62 bilhões até agosto, equivalente a 76,4% do rombo estimado para todo o ano: o Regime Geral de Previdência Social (RGPS) responde pela maior fatia, com déficit de R$ 276,84 bilhões, seguido pelo Regime Próprio dos servidores civis (R$ 42,73 bilhões negativos), pelas pensões e inativos das Forças Armadas (R$ 36,77 bilhões) e pelo Fundo Constitucional do Distrito Federal (R$ 7,01 bilhões). O relatório mostra ainda que a Dívida Consolidada Líquida da União fechou agosto em R$ 8,82 trilhões, ante R$ 8,02 trilhões em dezembro de 2025, e que a União cumpriu os pisos constitucionais do período: executou 88,14% do mínimo anual projetado para a Manutenção e Desenvolvimento do Ensino (MDE) e 89,39% do piso exigido até o bimestre em Ações e Serviços Públicos de Saúde (ASPS).

No mesmo dia, o Banco Central divulgou um retrato complementar das contas públicas, com um recorte mais amplo, que inclui estados, municípios e empresas estatais além do governo federal. Pelo critério do setor público consolidado, o déficit primário de agosto ficou em R$ 10 bilhões, também melhor que o resultado de agosto de 2025, quando o rombo havia somado R$ 17,3 bilhões. Desse total, o Governo Central concentrou um déficit de R$ 14,7 bilhões, parcialmente compensado pelos superávits de R$ 2,7 bilhões dos governos regionais (estados e municípios) e de R$ 2 bilhões das empresas estatais. No acumulado em 12 meses, o setor público consolidado soma déficit de R$ 82,1 bilhões, equivalente a 0,62% do PIB, uma melhora de 0,06 ponto percentual em relação ao acumulado até julho. No acumulado do ano, porém, o quadro é de piora nesse indicador mais amplo: o déficit chegou a R$ 88,9 bilhões (1% do PIB) até agosto, ante R$ 61,8 bilhões (0,74% do PIB) no mesmo período de 2025. Considerando apenas o governo federal dentro da metodologia do Banco Central, o rombo do ano soma R$ 97,1 bilhões, também acima dos R$ 84,6 bilhões apurados um ano antes.

O mesmo levantamento do Banco Central mostra que a dívida do setor público consolidado subiu 0,3 ponto percentual em agosto, para 82,9% do PIB — ante 82,5% do PIB (R$ 10,9 trilhões) em julho —, o equivalente a R$ 11,05 trilhões e o maior patamar desde março de 2021, quando o indicador estava em 85,1% do PIB. A alta de agosto veio principalmente dos juros nominais apropriados no período, que sozinhos adicionaram 0,8 ponto percentual ao indicador, além do efeito de 0,1 ponto percentual da desvalorização cambial; na direção contrária, a variação do PIB nominal aliviou a dívida em 0,5 ponto percentual. No acumulado do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), pouco mais de três anos, a dívida já avançou 11,2 pontos percentuais, alta associada principalmente ao aumento de gastos públicos, que eleva as despesas com juros. Nos governos anteriores a trajetória havia sido distinta: a gestão de Jair Bolsonaro (PL) conseguiu reduzir a dívida herdada do pico da pandemia até fechar o mandato em 71,7% do PIB. O ritmo recente de expansão chama atenção — dados do Banco Central mostram que o país levou apenas oito meses para a dívida pública saltar de R$ 10 trilhões para R$ 11 trilhões — e levantamento do Banco Central com o IBGE aponta que a dívida por habitante subiu de R$ 7.157 em 2006 para R$ 51.608 em 2026. Pelo conceito do Fundo Monetário Internacional (FMI), que também considera os títulos públicos na carteira do Banco Central, o endividamento brasileiro chega a 94,5% do PIB, patamar acima de outras economias emergentes e de países da América do Sul.

Quando os juros da dívida pública entram na conta — o chamado resultado nominal, usado para comparações internacionais —, as contas do setor público fecharam agosto com déficit de R$ 116 bilhões, e o acumulado em 12 meses chega a R$ 1,26 trilhão, ou 9,48% do PIB, número observado de perto por agências de classificação de risco. Os juros nominais do mês somaram R$ 105,9 bilhões, ante R$ 74,3 bilhões em agosto de 2025 — parte do salto reflete a reversão nas operações de swap cambial, que haviam rendido ganho de R$ 19,9 bilhões um ano antes e agora resultaram em perda de R$ 9,3 bilhões. No acumulado em 12 meses até agosto, essa despesa com juros chegou a R$ 1,1822 trilhão, equivalente a 8,86% do PIB, ante R$ 946,5 bilhões (7,61% do PIB) no mesmo período de 2025. O resultado nominal reflete, entre outros fatores, a Selic em 13,75% ao ano, atualmente em patamar elevado. Para tentar conter o avanço da dívida, o governo aprovou em 2023 o arcabouço fiscal, conjunto de regras que substituiu o teto de gastos.