Ciência

Fóssil de dinossauro com penas na China desafia teoria sobre origem do voo das aves

Com 57 centímetros e plumagem preservada, o Norellraptor barsboldi aponta para trajetórias evolutivas independentes
Dinossauro com penas na China: o Norellraptor barsboldi em voo, plumagem azul-esverdeada iridescente

Um dinossauro de 57 centímetros encontrado por um agricultor no nordeste da China virou peça central em um dos debates mais antigos da paleontologia: como o voo surgiu entre os parentes mais próximos das aves.

Batizado de Norellraptor barsboldi, o animal foi descrito em estudo publicado nesta terça-feira (29) na revista Nature Communications. O fóssil está quase completo e preserva parte da plumagem.

Mesmas soluções, caminhos diferentes

Os microraptoríneos — grupo a que pertence o Norellraptor — eram pequenos predadores emplumados que viveram no atual nordeste chinês durante o Cretáceo Inferior. Alguns tinham penas longas nos braços e também nas pernas, detalhe que há anos alimenta a discussão sobre como diferentes formas de locomoção aérea apareceram entre esses animais.

Ao comparar a anatomia do grupo com a das aves, os pesquisadores mapearam 194 mudanças evolutivas nos microraptoríneos. Cerca de 30% delas também aparecem na linhagem que deu origem às aves.

A coincidência, porém, esconde uma diferença decisiva: a ordem em que essas novidades surgiram. Nos microraptoríneos, alterações nas mãos vieram antes de outras mudanças no esqueleto. Nas aves, a sequência foi outra.

Para os autores, esse descompasso cronológico enfraquece a hipótese de que os dois grupos teriam herdado de um ancestral comum o mesmo pacote de estruturas associadas ao voo. A leitura alternativa é que chegaram a soluções anatômicas parecidas por trajetórias independentes.

Do campo ao museu

O exemplar foi localizado perto de Lamadong, na província de Liaoning, por um agricultor da região, e doado em 2023 ao Museu da Universidade GEO de Hebei. A rocha de origem é a Formação Jiufotang, uma das jazidas fossilíferas mais produtivas do planeta quando o assunto é dinossauro emplumado.

O material também permitiu estimar a idade do animal. A análise microscópica de um osso do antebraço indica que o Norellraptor tinha pelo menos três anos quando morreu — informação rara em fósseis desse porte e que ajuda a separar o que é característica de filhote do que é traço adulto.

O que ainda falta

Apesar do bom estado de conservação, os próprios pesquisadores freiam conclusões definitivas: serão necessários novos fósseis e mais análises de crescimento ósseo para saber se o mesmo padrão se repetiu em outros grupos de dinossauros aparentados às aves.