A médica e cientista Denise Pires de Carvalho, presidenta da Capes, assumirá nos próximos dias a vice-direção-geral de Ciências da Unesco. É a primeira vez que o Brasil ocupa a cadeira desde a criação da ONU, em 1945.
A agência justificou a escolha pela experiência da brasileira em gestão de pesquisa, avaliação de programas científicos e cooperação científica internacional.
Ao anunciar a indicação, a Unesco destacou a trajetória da cientista em liderança e gestão de pesquisa e afirmou que o trabalho dela “abordou dimensões sociais da ciência, incluindo acesso equitativo, igualdade de gênero e governança institucional inclusiva”.
Cooperação Sul-Sul como bandeira
Em entrevista à Agência Brasil, Denise disse que chega ao posto com o mesmo olhar que o Brasil aplicou à ciência nos últimos anos, com reforço do multilateralismo e de uma ciência voltada para as pessoas.
“Nesses últimos três anos, o que o Brasil fez, a Capes fez, foi defender a interação sul-sul no nível da pós-graduação, internacionalizar cada vez mais os programas de pós-graduação do país, interagindo com a América Latina e o Caribe, com os países da África, para além de toda a cooperação que nós já fazíamos”, afirmou.
A cientista também associou investimento científico ao desenvolvimento nacional, sobretudo nos países mais pobres. Para ela, não há caminho para o Brasil se tornar desenvolvido fora da ciência.
“Quem nega a ciência, nega o desenvolvimento da nação. Não há país independente sem universidades. Não há país independente sem ciência. E o Brasil começou muito tardiamente esse processo de verdadeira independência”, declarou.
Quem é Denise Pires de Carvalho
Médica com mestrado e doutorado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, ela é professora titular do departamento de Biofísica da instituição. Em 2019, tornou-se a primeira mulher a ocupar a reitoria da UFRJ.
Antes da Capes, comandou a Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação, entre 2023 e 2024, e assumiu a presidência da coordenação em fevereiro de 2024. Preside ainda o Conselho Científico do Institut de Recherche pour le Développement (IRD), da França, e integra redes de cooperação acadêmica de alcance regional e global.
Um posto inédito, uma relação antiga
O ineditismo do cargo contrasta com a proximidade histórica entre o país e o sistema das Nações Unidas: o Brasil foi um dos fundadores da ONU em 1945 e, desde então, mantém a tradição simbólica de abrir os discursos da Assembleia Geral.