Ciência

Radiotelescópio capta primeiro sinal de rádio de exoplaneta e mede seu campo magnético

A 63 anos-luz de distância, o gigante gasoso Beta Pictoris b revela auroras movidas por um magnetismo 2,5 mil vezes maior que o terrestre
Exoplaneta gigante gasoso emite auroras brilhantes, ilustrando o sinal de rádio de exoplaneta captado por radiotelescópio

Depois de três décadas de buscas sem resultado, astrônomos dizem ter captado a voz de um planeta fora do Sistema Solar.

O primeiro sinal de rádio atribuído diretamente a um exoplaneta veio de Beta Pictoris b, gigante gasoso a pouco mais de 63 anos-luz da Terra, detectado pelo conjunto de radiotelescópios MeerKAT, na África do Sul, em quatro sessões de observação entre 2025 e 2026.

A equipe é liderada por Kevin Ortiz Ceballos, do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian, e publicou o resultado na plataforma arXiv, ainda sem revisão por pares.

O que emite o sinal não é uma civilização, é uma aurora

O sinal não tem qualquer relação com uma tentativa de comunicação extraterrestre. Ele nasce de auroras — o mesmo fenômeno que acende os céus polares da Terra e produz as rajadas de rádio de Júpiter.

Em Beta Pictoris b, o processo seria turbinado por um campo magnético extraordinariamente intenso, que canaliza partículas energéticas até as camadas superiores da atmosfera. Ali, a interação dessas partículas gera a emissão captada pelos radiotelescópios.

Por trás dela estaria a instabilidade máser de ciclotron de elétrons (ECMI, na sigla em inglês), mecanismo já usado para explicar as radioauroras dos planetas do Sistema Solar.

Como saber se o rádio vem do planeta, e não da estrela

Esse era o obstáculo que travava a área havia anos: separar a emissão do planeta daquela de sua estrela. O MeerKAT registrou uma emissão persistente e rajadas curtas e repetidas, todas com forte polarização circular — as ondas giravam em espiral enquanto se propagavam, assinatura típica de auroras.

Para fixar o endereço do sinal, a equipe usou quasares, objetos extremamente distantes, como referência para refinar as medições. A precisão obtida permitiu apontar Beta Pictoris b como origem e descartar tanto a estrela quanto o planeta vizinho, Beta Pictoris c.

Um magnetômetro a 63 anos-luz de distância

As mesmas ondas serviram de instrumento de medida. Em emissões aurorais, a frequência máxima do rádio cresce junto com a intensidade do campo magnético que a produz. Em Beta Pictoris b, os sinais chegaram a 3,5 gigahertz, o teto da faixa observada pelo MeerKAT.

A conta indica um campo muito superior ao de Júpiter e cerca de 2,5 mil vezes mais forte que o registrado na superfície terrestre — e esse é apenas o piso, já que o valor real pode ser ainda maior. Segundo os autores do estudo, é a primeira vez que o magnetismo de um exoplaneta é medido de forma direta.

Por que as tentativas anteriores falharam

Uma campanha com o Very Large Array, em 2022, não achou nada, e uma busca de 2024 dedicada ao próprio Beta Pictoris b também voltou vazia. A diferença está na sintonia: aquele estudo varreu de 250 a 500 megahertz, enquanto as novas observações cobriram de 0,85 a 3,5 gigahertz.

O alvo também ajuda. O planeta tem de 10 a 12 vezes a massa de Júpiter, completa uma rotação em oito ou nove horas — velocidade que pode alimentar as auroras — e aparece bem separado da estrela no céu. Vento estelar e a interação com uma lua hipotética foram avaliados como fontes de energia, mas nenhum desses mecanismos, isoladamente, explicaria a potência observada.

Medir o campo magnético interessa ainda à discussão sobre habitabilidade, porque dele depende em parte a capacidade de uma atmosfera resistir ao vento da própria estrela. A equipe já mira outros sete gigantes gasosos em cinco sistemas próximos, apostando em radiotelescópios de nova geração entre cinco e sete vezes mais sensíveis.