O Brasil consolidou uma tradição de ser o primeiro país a discursar na Assembleia Geral da ONU, resultado de sua atuação destacada na fundação da instituição em 1945. Apesar de não conquistar um assento permanente no Conselho de Segurança, o país ganhou reconhecimento internacional e influência nos debates globais.
O protagonismo brasileiro é visto como um prêmio de consolação e uma oportunidade estratégica para a política externa nacional, destacando-se pelo multilateralismo e diplomacia.
Participação brasileira na fundação da ONU
Oito delegados brasileiros participaram da Conferência de San Francisco, em 1945, que resultou na criação da Organização das Nações Unidas. Entre eles estavam o embaixador Pedro Leão Velloso, chefe da comissão, os embaixadores Carlos Martins Pereira e Souza e Cyro de Freitas Valle, além da bióloga e educadora Bertha Lutz, única mulher do grupo, conhecida por seu ativismo feminista.
O presidente Getúlio Vargas foi criterioso na escolha dos nomes para a comitiva, incluindo Lutz como delegada. Segundo o embaixador Eugênio Vargas Garcia, o Brasil desempenhou papel relevante na fundação da ONU, chegando a ser cogitado para um assento permanente no Conselho de Segurança, posição ocupada apenas por China, França, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos.
Em 1944, na Conferência de Dumbarton Oaks, o Brasil foi o único país latino-americano cogitado para uma sexta cadeira permanente, mas a proposta foi rejeitada por dúvidas sobre o status político, econômico e militar do país. Britânicos, soviéticos e norte-americanos se opuseram unanimemente à ideia.
O legado da atuação brasileira
Apesar de não conquistar o assento, o Brasil tornou-se o primeiro a discursar na Assembleia Geral da ONU, tradição vista como reconhecimento de sua contribuição. O jurista Luís Fernando Baracho destaca que essa prerrogativa é uma chance de protagonismo no cenário internacional. O diplomata Oswaldo Aranha presidiu a sessão de 1947 que aprovou a criação do Estado de Israel, reforçando a relevância do país.
O cientista político Leonardo Bandarra observa que o desejo do Brasil de integrar o grupo das grandes potências precede a ONU, já que o país participou do conselho da Liga das Nações. O apoio dos Estados Unidos, especialmente do presidente Franklin Roosevelt, também foi fundamental, mas a morte de Roosevelt em 1945 enfraqueceu as aspirações brasileiras.
Promessa não cumprida e reconhecimento internacional
Após a Conferência de San Francisco, o Brasil recebeu apenas promessas vagas sobre o aumento de cadeiras permanentes. Um telegrama do secretário de Estado norte-americano Edward Stettinius, em junho de 1945, confirmou que o país não teria o assento, mas reconheceu sua importância para a paz e segurança mundiais.
A atuação brasileira projetou o país no contexto internacional, mesmo em meio a um cenário político interno conturbado. O jurista Enrique Natalino ressalta que o Brasil liderou os interesses da América Latina e defendeu a igualdade soberana das nações na carta fundadora da ONU. Bertha Lutz foi fundamental para garantir a igualdade de gênero no texto do documento.
O papel estratégico do Brasil
O cientista político Márcio Coimbra recorda que o Brasil foi um dos 21 países a assinar a Declaração das Nações Unidas em 1942, alinhando-se contra o Eixo na Segunda Guerra Mundial. O pesquisador Victor Missiato destaca que o país aproveitou sua imagem de líder regional e defensor do multilateralismo, buscando construir pontes entre o Sul e o Norte global.
Segundo a socióloga Carolina Pavese, o legado da participação brasileira na criação da ONU é a influência e o prestígio internacional, com o multilateralismo e a diplomacia como ferramentas estratégicas para promover interesses nacionais.