Meio ambiente

Desmatamento pode elevar mercúrio em peixes do Araguaia, aponta estudo

Concentrações em lagos do Cerrado se aproximam das do rio Madeira, bacia amazônica marcada por décadas de garimpo
Lago do Cerrado com buritis, região onde estudo aponta mercúrio em peixes do Araguaia

Peixes capturados em lagos de várzea do rio Araguaia, no Cerrado, chegaram a 1.947 microgramas de mercúrio por quilo — patamar próximo ao de uma bacia amazônica com décadas de garimpo, onde a mineração de ouro no Araguaia foi breve e restrita.

O dado está em estudo publicado na revista Environmental Geochemistry and Health, que comparou peixes das bacias do Araguaia e do rio Madeira e aponta o desmatamento e as queimadas como vetores capazes de mobilizar o metal do solo para a água.

A pesquisa analisou peixes de lagos de planície de inundação ligados a dois sistemas fluviais de história ambiental oposta. De um lado, o Madeira, moldado por décadas de garimpo, desmatamento e hidrelétricas. Do outro, o Araguaia, onde o avanço da soja, da pecuária e do fogo redesenhou a paisagem.

As concentrações de mercúrio total ficaram entre 37 e 2.473 microgramas por quilo (µg/kg) no Madeira e entre 6 e 1.947 µg/kg no Araguaia. Nas duas bacias, espécies planctívoras, carnívoras e piscívoras acumularam muito mais metal que as detritívoras: no Araguaia, a média foi de 744 µg/kg nos piscívoros e 465 nos carnívoros, contra 42 µg/kg nos que se alimentam de detritos.

Cadeia alimentar menos estruturada amplifica o efeito

Embora os maiores valores absolutos estejam no Madeira, a biomagnificação — o acúmulo crescente do contaminante a cada elo da cadeia alimentar — foi mais intensa no rio do Cerrado. “O Araguaia também é extremamente biodiverso, mas sua cadeia trófica é menos estruturada, o que pode favorecer uma biomagnificação mais intensa do mercúrio”, disse Lucas Cabrera Monteiro, doutorando em Ecologia pela UnB e um dos autores, em entrevista a Samanta do Carmo para a Mongabay Brasil.

Boa parte do mercúrio não sai das dragas. O metal ocorre naturalmente nos solos da Amazônia e do Cerrado e é mobilizado por desmatamento, queimadas e erosão. Ao chegar a rios e lagos, passa por transformações químicas que geram o metilmercúrio, forma mais tóxica e absorvida com facilidade pelos organismos aquáticos.

“Quando normalizamos os dados pelo tamanho dos peixes, colocamos todos no mesmo páreo e vimos que as concentrações são comparáveis, mesmo sem a presença de garimpo”, afirmou Monteiro.

O risco recai sobre quem come peixe com frequência

Os autores simularam três padrões de consumo: 50 gramas de peixe por semana na população urbana, 100 gramas na rural e 300 gramas em comunidades tradicionais, categoria que inclui ribeirinhos. No cenário mais intenso, 230 amostras do Madeira e 50 do Araguaia resultaram em ingestão semanal acima do limite tolerável internacional. Nos cenários urbano e rural, não houve ultrapassagens significativas.

Gestantes e crianças são os grupos mais vulneráveis: a exposição pode afetar o desenvolvimento do feto e, na infância, comprometer o sistema nervoso e o desenvolvimento cognitivo e motor. Em junho, um levantamento já havia mostrado que metade dos indígenas de Oiapoque (AP) apresentava mercúrio acima do limite considerado elevado pela OMS, evidência de como a contaminação se reflete na saúde de quem depende do pescado.

Anvisa não vê cenário atípico

A legislação brasileira tolera 500 µg/kg em peixes não predadores e 1.000 µg/kg nos predadores. “Os níveis de contaminação na bacia do Araguaia, em princípio, não revelam um cenário atípico, pois 96% das amostras encontram-se dentro dos LMT”, respondeu a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que conduz com os demais países do Mercosul uma revisão para passar a fixar os limites especificamente para metilmercúrio.

Falta, porém, a peça central para dimensionar o risco no Cerrado. “Ainda não sabemos, de fato, quanto mercúrio as pessoas do Araguaia estão acumulando, porque não conhecemos a frequência com que consomem peixe”, disse Monteiro.