Criminosos transformaram a seção de comentários do TikTok em vitrine para vender conteúdo de abuso sexual infantil hospedado no Telegram, com códigos desenhados para escapar dos filtros das duas plataformas.
O esquema foi mapeado em semanas de monitoramento do g1 em mais de 30 perfis: os pacotes de fotos e vídeos são negociados a partir de R$ 10, com pagamento em PIX ou criptomoedas.
Produzir, vender, divulgar ou simplesmente acessar esse material é crime no Brasil, e as plataformas também podem ser responsabilizadas, lembram especialistas em direitos da infância.
Códigos no comentário, venda fora da vitrine
A isca quase nunca tem relação com o que está sendo negociado. Um dos vídeos monitorados mostra apenas um gato dançando. Outro exibe uma versão criada por inteligência artificial do bilionário Jeffrey Epstein anunciando um grupo em que seria possível “enviar de tudo”.
O ponto em comum está logo abaixo: comentários tomados por sequências de códigos. Quem se interessa responde com outro código, em vez de pedir o material de forma explícita, e é encaminhado por contas satélites que mandam consultar a bio do perfil.
Quando aparece um link, ele costuma trazer a palavra invite seguida de uma sequência que precisa ser digitada para abrir uma página no Telegram com a prévia do material. Em outros casos, a negociação corre direto com bots ou em conversa privada. Buscas por certas frases chegaram a ser bloqueadas pela rede, mas variações de código seguiam levando a publicações sem restrição.
A maior parte dos comentários estava em espanhol, com muitos em português; o site Tikip.us, que estima a origem de contas, aponta concentração na Europa. A fragilidade da moderação da rede já havia sido descrita por ex-funcionários que relataram como TikTok e Meta sacrificaram segurança por engajamento, com denúncias de conteúdo sexual envolvendo adolescentes tratadas como prioridade menor que casos políticos.
Lei mais dura desde agosto
Sancionada por Lula em 6 de agosto de 2026, a partir de projeto do deputado Osmar Terra (MDB-RS), a nova lei substitui o termo pornografia por violência sexual contra criança ou adolescente e alcança também material fictício gerado por IA. A regulamentação do ECA Digital avança em paralelo, com uma portaria do Ministério da Justiça para padronizar como plataformas notificam as autoridades.
Preço de saldo e o rastro que o criminoso ignora
Um pacote de 3 GB de fotos e vídeos sai por R$ 10; outro, de 15 GB, por R$ 35. Em sites, os valores vão de US$ 11,99 a US$ 25, cerca de R$ 62 a R$ 130, e dão acesso a grupos privados com milhares de arquivos. Os preços caem porque há muita gente vendendo material semelhante.
Antes de fechar negócio, os vendedores enviam prévias em vídeos autodestrutivos e, depois do PIX confirmado, mandam os arquivos na própria conversa. Para investigadores da Polícia Federal, o uso do PIX revela falsa sensação de segurança: mesmo com contas de laranjas, de terceiros ou de ex-namoradas, o pagamento registra os dados de quem paga e pode levar a polícia ao comprador.
O problema cresce em escala. O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública contabilizou 4.063 registros de produção, posse ou distribuição desse tipo de material em 2025, alta de 23% sobre os 3.280 do ano anterior. Em cerca de um em cada três casos, o autor denunciado às polícias civis era adolescente.
A denúncia também se acumula contra o Telegram: em agosto, a SaferNet entregou à ANPD um levantamento com 1.093 contas ativas com indícios de abuso infantil, apuradas entre quase 15 mil links analisados.
O Telegram afirma ter removido mais de 339 mil grupos e canais ligados a esse conteúdo em 2026 e diz ter praticamente eliminado sua circulação pública. O TikTok afirma remover as publicações e banir contas, com 99,8% do material retirado de forma proativa no primeiro trimestre. A Meta, cujo Instagram não exibiu resultados para os mesmos códigos, diz investir em detecção proativa.