O Banco Central cortou de 2% para 1,8% a projeção de crescimento do PIB brasileiro em 2026. O número consta do Relatório de Política Monetária do terceiro trimestre, divulgado nesta quinta-feira (24).
A revisão confirma um ano de perda de fôlego: em 2025, a economia havia crescido 2,3%, conforme o IBGE. E o freio não para por aí — para 2027, primeiro ano de um novo mandato presidencial, o BC projeta alta de apenas 1,4%.
Atividade mais fraca do que o esperado
Pela leitura da autoridade monetária, o corte incorpora os primeiros indicadores do terceiro trimestre, que sugerem atividade mais fraca do que o previsto, somados a uma “composição menos favorável do crescimento no segundo trimestre” — quando o PIB cresceu 0,5%, depois de uma expansão de 1,1% no primeiro trimestre, segundo o próprio Relatório de Política Monetária.
O contraste com o diagnóstico anterior é curto no calendário: apenas três meses antes, o próprio Banco Central havia elevado a projeção para 2% citando os estímulos fiscais do ano eleitoral — impulso que agora aparece esgotado na conta.
O mesmo relatório manteve em 5,2% a projeção de inflação para o fim de 2026, acima do centro da meta, mesmo com a desaceleração observada nos últimos meses: o IPCA acumulado em 12 meses recuou de 4,72% em maio para 4,22% em agosto. Para o BC, a inflação de serviços “segue elevada em cenário de mercado de trabalho aquecido e hiato do produto positivo”, e as expectativas de mercado permanecem acima da meta em todo o horizonte de projeção considerado pela autoridade monetária. O documento também destaca que, apesar da atividade mais fraca, o mercado de trabalho segue aquecido, com taxa de desocupação em nível historicamente baixo e geração de empregos com carteira assinada ainda positiva, ainda que em ritmo menor.
Juros entre os mais altos do planeta
O pano de fundo da desaceleração é uma taxa básica ainda desenhada para segurar a atividade e, com ela, a inflação dentro da meta. Mesmo depois de cinco cortes seguidos — o mais recente deles definido pelo Copom na reunião de setembro —, a Selic está em 13,75% ao ano, um dos maiores patamares do mundo em termos reais.
O aperto convive com o movimento oposto vindo do Executivo: em ano eleitoral, o governo abriu uma sequência de linhas de crédito com taxas favorecidas para caminhoneiros, taxistas, microempreendedores, reforma de imóveis e renegociação de dívidas. Mesmo assim, desde maio o BC já sinalizava que o cenário de freio seguia de pé, ainda com a economia acelerando no primeiro trimestre.
O comitê também aponta que o ambiente externo permanece incerto, em razão dos conflitos armados ainda não resolvidos no Oriente Médio e das decisões futuras de política monetária em economias avançadas — fatores que, segundo o relatório, reforçam a necessidade de cautela na condução da política monetária.
A conta fiscal de crescer menos
Economia mais lenta em 2026 e 2027 não é apenas um número de relatório: ela encolhe a arrecadação de impostos e contribuições federais e transfere o problema direto para o Orçamento de quem assumir.
A distância entre as projeções é grande. No projeto de lei orçamentária de 2027, enviado ao Congresso Nacional no fim de agosto, a equipe econômica trabalhou com PIB crescendo 2,46% — quase o dobro do 1,4% agora estimado pelo Banco Central.
IFI projeta rombo bilionário
Esse descolamento ajuda a explicar por que a Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão ligado ao Senado, calcula para o próximo ano um déficit de R$ 86,1 bilhões nas contas do governo, enquanto o próprio governo estima saldo positivo de R$ 18,6 bilhões.
Diante do buraco, a avaliação da IFI é de que o governo eleito terá de promover um bloqueio de gastos logo no início de 2027 para tentar alcançar a meta de superávit — um primeiro ano de mandato começando pelo corte, não pelo gasto.