A economia brasileira cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, segundo o IBGE, mas perdeu força em relação ao avanço de 1,1% registrado nos três primeiros meses do ano.
Economistas ouvidos pelo g1 apontam uma desaceleração da economia brasileira concentrada em poucos setores, com o consumo das famílias em queda de 0,4% no período.
O resultado foi puxado pela agropecuária e pela indústria extrativa, enquanto a indústria de transformação, mais dependente do mercado interno, recuou 0,4%.
Crescimento concentrado em poucos setores
A alta de 0,5% do PIB no segundo trimestre veio acima da expectativa do mercado, que projetava avanço de 0,4%, mas a composição do resultado preocupa analistas. A agropecuária cresceu 2,8% e a indústria extrativa avançou 3,4%, enquanto a indústria de transformação recuou 0,4% no período. No primeiro trimestre, quando o consumo das famílias ainda crescia 1% e a agropecuária puxava o resultado para cima, o cenário era bem diferente do observado agora.
Indústria manufatureira perde força
Para a economista Juliana Inhasz, a fraqueza da indústria de transformação é o ponto mais preocupante do resultado, já que o setor tem cadeia produtiva mais longa e maior capacidade de gerar empregos e valor dentro do país. “A indústria manufatureira está enfraquecida e muito enfraquecida, porque depende das condições do mercado interno”, afirma a economista.
Peso real da agropecuária no PIB
A professora Carla Beni pondera que o forte desempenho do agro não deve ser lido como sinal de aceleração geral da economia. Segundo ela, o setor responde por cerca de 7% a 8% do PIB, enquanto os serviços representam cerca de 70% e a indústria, entre 20% e 22% — por isso a agropecuária sustenta o resultado, mas não compensa a perda de força dos setores de maior peso. Como o Ministério da Fazenda já havia antecipado após o resultado do primeiro trimestre, o ritmo mais lento não pegou o mercado de surpresa.
Consumo em queda e espaço para corte de juros
O consumo das famílias caiu 0,4% no trimestre, mesmo com o mercado de trabalho ainda aquecido. Para Carla Beni, a queda está ligada aos efeitos defasados da política monetária restritiva e ao alto nível de inadimplência, que dificulta a manutenção do ritmo de gastos das famílias.
Enquanto o consumo recuava, os gastos do governo cresceram 0,4% na comparação com o primeiro trimestre. Os investimentos, medidos pela Formação Bruta de Capital Fixo, avançaram 1,2%, mas a taxa de investimento em relação ao PIB ficou em apenas 16,1% — nível que, segundo Inhasz, limita a capacidade de a economia ampliar a oferta de bens e serviços sem gerar pressão adicional sobre os preços.
O economista André Caruso vê no resultado a confirmação de que o país entrou em uma fase de desaceleração e não descarta variação negativa no terceiro trimestre, embora não considere a recessão o cenário mais provável. Como o Banco Central já vinha sinalizando desde a prévia do PIB do primeiro trimestre, a perda de ritmo pode abrir espaço para novos cortes da Selic pelo Copom, caso a inflação continue cedendo — hoje, o principal obstáculo para essa trajetória está nas expectativas inflacionárias.