O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu nesta terça-feira (22) o debate geral da 81ª Assembleia Geral da ONU com um discurso centrado na soberania: “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”, disse, ao defender o princípio da não interferência em assuntos internos.
A fala mirou a ingerência externa em processos eleitorais e ocorreu na reta final da eleição presidencial de 4 de outubro, em meio à tensão diplomática com o governo de Donald Trump, que taxou produtos brasileiros.
Soberania ou subordinação
Na tribuna, Lula resumiu o momento internacional como uma escolha de rumo: “Somos chamados a optar entre multilateralismo ou unilateralismo, democracia ou extremismo, soberania ou subordinação”. Ao tratar da América Latina e do Caribe, reconheceu que “a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável, sobretudo no contexto do recrudescimento de tentações hegemônicas” — contexto em que cunhou a frase que abre este texto. Condicionou a relação com Washington a parceiros com agenda positiva, que fomente o desenvolvimento.
“Diferenças ideológicas não devem ser obstáculo para maior integração entre vizinhos. A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais”, prosseguiu o presidente, ao afirmar que o país “não subestima” o desafio das redes de desinformação que tentam contaminar o debate público durante a campanha eleitoral brasileira. E completou: “Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros”.
Para sustentar o argumento, Lula citou exemplos recentes da região: disse que o povo venezuelano deve decidir seu próprio destino sem interferências externas, que a Nicarágua não resolverá seus impasses internos impedindo a participação da oposição nas eleições, mencionou a crise humanitária no Haiti e voltou a criticar o embargo econômico imposto a Cuba.
O recado tem endereço eleitoral. Lula disputa a Presidência com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), recebido por Trump na Casa Branca em maio. O governo norte-americano também impôs tarifas adicionais a produtos brasileiros, medida contestada pelo Planalto — cobrança que remonta à sobretaxa de 50% aplicada em 2025, descrita à época como a maior crise diplomática entre os dois países em décadas.
No mesmo discurso, Lula rejeitou a participação de forças estrangeiras no combate ao crime organizado em território brasileiro. “Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas; precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastece o crime organizado”, afirmou, ao revelar que o Brasil apresentou aos Estados Unidos uma proposta de cooperação para combater a lavagem de dinheiro praticada por criminosos brasileiros no exterior.
Floresta em pé, minério no chão
Na parte ambiental, Lula afirmou que o país tem condições de conciliar crescimento econômico, redução de emissões e preservação. Citou o desmatamento na Amazônia no menor nível em 11 anos, disse que o Brasil é referência em energia limpa e repetiu que “a floresta vale mais em pé do que destruída”.
O mesmo trecho abriu espaço para a agenda extrativa: o governo seguirá buscando explorar a Margem Equatorial e as terras raras necessárias à transição energética, sem abandonar, segundo ele, o processo de descarbonização.
“Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro — e é em benefício dele que serão exploradas”, afirmou, ao condicionar o acesso aos minerais à geração de valor em território nacional, à transferência de tecnologia e ao suprimento de setores estratégicos.
Quem falou depois
O Brasil abre o debate geral desde 1955, tradição mantida neste ano: logo após Lula, subiu à tribuna o próprio Trump. A Assembleia Geral reúne representantes dos 193 Estados-membros e é o palco em que chefes de Estado e de governo apresentam prioridades. O atrito atual com Washington tem raiz na condenação de Jair Bolsonaro pelo STF por tentativa de golpe, episódio que Lula usou no ano passado como prova de que o Brasil “deu recado a candidatos autocratas”.