O Quênia intensificou a repressão ao contrabando de formigas raras vendidas a criadores europeus. Em abril, a Justiça condenou um cidadão chinês a um ano de prisão por tentar exportar milhares de rainhas da espécie Messor cephalotes, cotada a mais de 200 euros (R$ 1,2 mil) cada.
A prática ameaça o ecossistema da savana: pesquisadores afirmam que a retirada de rainhas interrompe a formação de novas colônias e prejudica a dispersão de sementes de gramíneas, essencial para a regeneração da vegetação local.
Casos revelam mercado consolidado de contrabando
Desde 2025, apreensões de formigas têm sido usadas como prova em processos no Quênia. Funcionários da autoridade de proteção à vida selvagem do país encontraram os insetos durante inspeções de bagagem, muitas vezes carregando milhares de exemplares da Messor cephalotes, a formiga-colheitadeira-gigante-africana.
O caso do cidadão chinês condenado em abril foi o segundo do tipo em menos de um ano. Antes, quatro homens que se autodenominavam “gangue das formigas” — entre eles dois belgas de 19 anos — foram flagrados tentando contrabandear 5,5 mil rainhas para a Europa. Eles pagaram multa de 5 mil euros (R$ 29 mil).
Impacto na savana e no comportamento das rainhas
O entomólogo queniano Dino Martins, um dos principais especialistas em formigas da África, é frequentemente acionado em aeroportos para avaliar apreensões. Segundo ele, os animais interceptados eram rainhas jovens, retiradas de seus ninhos antes do voo de dispersão — etapa em que fundam novas colônias. “Quando se recolhem rainhas nesse momento crítico, interrompe-se uma etapa central para o surgimento de novas colônias”, explica. As formigas também transportam sementes de gramíneas, contribuindo para a regeneração da vegetação da savana.
Na Europa, criar formigas como animais de estimação virou hobby entre jovens, que mantêm colônias em terrários de vidro. É o caso de Michael Meier (nome fictício), que já chegou a manter quase 30 colônias e hoje cuida de quatro. Segundo ele, espécies exóticas atraem mais interesse por não entrarem em dormência no inverno, o que permite observá-las o ano todo. Lojas virtuais especializadas vendem formigas africanas pelo correio, incluindo a espécie apreendida no Quênia.
Comércio online escancara lacuna regulatória
Uma investigação da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC) mapeou mais de 60 plataformas e identificou 266 mil anúncios de venda de animais silvestres, somando cerca de 66 milhões de dólares (R$ 336 milhões) — sem contar insetos. “A principal conclusão é que isso deixou de ser um problema marginal escondido em sites obscuros. Hoje vemos esse comércio ocorrer em plataformas amplamente utilizadas, como o Facebook”, afirma o pesquisador Russell Gray, responsável pelo levantamento.
Como as formigas não constam na lista de espécies ameaçadas da Convenção sobre Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (Cites), seu comércio segue sem proibição nem regulamentação global — mesmo com a exportação vetada pela lei queniana. O biólogo Chris Shepherd, do Centro para Diversidade Biológica, defende que a Cites passe a tratar do tema e alerta que espécies raras com preços altos atraem o crime organizado.
O risco ambiental já é sentido na Europa: colônias da formiga invasora Tapinoma magnum, do Norte da África, provocam interrupções na rede elétrica e de internet no sul da Alemanha ao se instalarem em caixas de distribuição. As mudanças climáticas, com temperaturas mais altas e menos geadas, ampliam as condições favoráveis à espécie na Europa Central — tema de uma conferência sobre formigas realizada em 2025 na Áustria, na Suíça e no sul da Alemanha. O impasse ecoa as metas globais de biodiversidade avaliadas em Nairóbi, que preveem reduzir à metade a introdução de espécies invasoras até 2030.