A Índia vai defender a integração das moedas digitais dos bancos centrais do Brics para facilitar pagamentos internacionais durante a cúpula do bloco em Nova Delhi, nos dias 12 e 13 de setembro, mesmo diante de obstáculos políticos e técnicos.
A proposta, apresentada pelo Reserve Bank of India em janeiro, deve constar da agenda oficial da reunião entre os líderes do bloco, segundo duas fontes que pediram para não ser identificadas por não estarem autorizadas a falar à imprensa.
Proposta soma-se a esforço do bloco por autonomia financeira
O Brics reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, além de Egito, Etiópia, Indonésia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. O Reserve Bank of India propôs em janeiro a integração das moedas digitais oficiais — as CBDCs — emitidas pelos bancos centrais do grupo, com o objetivo de tornar o comércio internacional entre os países-membros mais rápido e menos dependente de intermediários.
Em agosto, o próprio presidente do banco central indiano já havia sinalizado publicamente que CBDCs e sistemas de pagamento instantâneo entrariam na pauta da cúpula — um passo anterior ao que as fontes agora confirmam como posição oficial do governo indiano.
A iniciativa dá continuidade à declaração aprovada na cúpula do Brics de 2025, no Rio de Janeiro, quando o Brasil liderou o bloco na defesa da interoperabilidade entre sistemas de pagamento nacionais.
Rivalidades internas ameaçam viabilidade do projeto
Qualquer avanço, porém, esbarra em desafios já conhecidos. Discussões anteriores dentro do bloco sobre mecanismos de pagamento compartilhados avançaram pouco, evidenciando as dificuldades de integrar infraestruturas financeiras de países com sistemas e interesses diversos — como já mapeava o Tropiquim durante o encontro de 2025 no Brasil.
As relações tensas entre Irã e Emirados Árabes Unidos são um dos principais obstáculos, segundo uma das fontes: os emiradenses cortaram relações financeiras com o país persa. A Índia, por sua vez, tem resistido a aprofundar a integração financeira com a China, o que exigiria um nível de confiança ainda inexistente entre os dois vizinhos asiáticos. Nova Délhi já barrou uma proposta da Alipay+ para se conectar ao sistema indiano de pagamentos instantâneos, citando riscos à segurança nacional ligados aos vínculos da empresa com Pequim.
Sem pretensão de substituir o dólar
O tema não é novo na agenda do bloco: os países do Brics já discutiram alternativas aos pagamentos em dólar, incluindo uma proposta brasileira para uma moeda comum do grupo, que não avançou. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou a ameaçar o bloco com tarifas elevadas caso a iniciativa fosse adiante.
Segundo uma das fontes ouvidas, porém, a Índia não busca substituir o dólar com a integração das CBDCs — o objetivo declarado é tornar os pagamentos internacionais entre os países-membros mais ágeis e baratos. Para que o sistema funcione na prática, seriam ainda necessários acordos de swap cambial capazes de administrar desequilíbrios comerciais entre os participantes antes de qualquer operação conjunta.
Os ministérios indianos das Relações Exteriores e das Finanças, além do banco central do país, não responderam aos pedidos de comentário sobre o assunto. A definição do tema deve ocorrer durante os dois dias de reunião de líderes em Nova Delhi.