O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta terça-feira (8) o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada da Costa.
A decisão suspende a produção de relatórios de inteligência sobre magistrados, advogados públicos e delegados, além de abrir investigações na Corregedoria da PF.
Os documentos apócrifos monitoravam o próprio relator e o advogado-geral da União, Jorge Messias.
Os relatórios apontavam que o advogado-geral da União, Jorge Messias, evitou recorrer de decisões nas operações “Sem Desconto” e “Compliance Zero” para preservar uma “relação política com o relator”. Os próprios autores classificavam essa hipótese como de “baixa confiança”, mas ainda assim a usavam para justificar o monitoramento contínuo do ministro e do chefe da AGU.
Mendonça reagiu com dureza a outro trecho do material, que atribuía a conduta de Messias e do relator a uma suposta “matriz religiosa comum” e ao apoio de igrejas evangélicas em suas candidaturas ao STF. O ministro classificou a tese como “surreal” e “abjeta”.
Documentos sem validade jurídica
Segundo a decisão, os relatórios eram apócrifos: não tinham timbre, brasão, assinatura ou numeração, o que os tornava, nas palavras de Mendonça, um “nada jurídico” em desacordo com a Doutrina Nacional de Inteligência de Segurança Pública. A unidade de inteligência da PF, identificada como UADIP, chegava a fazer escrutínio do trabalho de delegados em investigações ativas.
Outro ponto tratado como de extrema gravidade foi o vazamento de dados sigilosos sobre investigações em andamento, com informações sobre casos envolvendo os políticos Antonio Rueda e ACM Neto. Segundo Mendonça, a divulgação prévia revelou possíveis medidas cautelares aos alvos, “frustrando completamente a sua eficácia” e prejudicando as apurações.
A produção das peças gerou reação imediata de categorias técnicas. A Intelis, que representa profissionais de inteligência da Abin, publicou nota afirmando que a atividade de Estado “não se confunde com investigação criminal”. Já o presidente da Associação de Delegados da Polícia Federal chamou a circulação dos documentos fora da corporação de “totalmente irregular”. Um perito da PF já havia sido investigado em maio por vazar dados sigilosos da Compliance Zero, operação citada nominalmente entre os relatórios que embasaram o afastamento de Rodrigues.
A crise em torno da cúpula da PF começou a se desenhar em 2 de setembro, quando o Partido Novo acionou o STF pedindo providências para preservar a independência das investigações contra Andrei Rodrigues. No dia seguinte, a legenda foi além e pediu a prisão preventiva do diretor-geral, alegando indícios de participação em uma rede de influência criminosa liderada por Daniel Vorcaro — mensagens do celular do banqueiro faziam referências diretas ao nome “Andrei”.
A decisão de Mendonça também cita uma entrevista da jornalista Monica Waldvogel, da GloboNews, em que Rodrigues teria confirmado que a PF produziu cerca de cinco ou seis relatórios de inteligência para “consumo próprio” sobre supostas irregularidades do ministro na condução de provas. Segundo o relato, esse material foi posteriormente solicitado por Alexandre de Moraes e usado para embasar a denúncia contra o próprio diretor-geral.
Precedentes e próximos passos
Para justificar o afastamento, Mendonça citou decisões anteriores do STF, como a suspensão do então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, em 2016, e o afastamento temporário do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, em 2023. O ministro pediu ainda a convocação de uma sessão virtual extraordinária da Segunda Turma para referendar a medida ainda nesta terça-feira.
Até a publicação desta reportagem, nem Rodrigues nem Leandro Almada da Costa haviam se manifestado. Menos de duas semanas antes, o presidente Lula ainda tentava mediar uma reunião entre Mendonça e Rodrigues para reduzir a tensão entre o ministro e a cúpula da Polícia Federal.