O El Niño coloca em risco a produção agrícola brasileira e deve pressionar os preços de alimentos nos supermercados ao longo de 2027.
A NOAA estima mais de 60% de chance de um evento muito forte entre novembro e janeiro — janela crítica para o plantio de milho e café.
As hortaliças serão as primeiras a sentir os efeitos, por serem mais sensíveis às variações climáticas. Café, milho, laranja e cana-de-açúcar enfrentam risco elevado de perdas na safra do próximo ano.
Os produtos mais afetados nas lavouras
Economistas e analistas apontam milho, café, laranja, cana-de-açúcar, trigo, arroz e leite como os principais itens em risco. “Certamente vai impactar o preço dos alimentos. É meio que inevitável, principalmente se afetar as janelas de plantio”, afirma Leandro Gilio, pesquisador do Insper Agro Global.
No café, o fenômeno aumenta o risco de floradas irregulares e grãos menores. O setor iniciou 2026 com expectativa de safra recorde — mais de 66 milhões de sacas —, mas as chuvas já registradas atrasaram a colheita do conilon. Para o arábica, o principal risco recai sobre 2027: uma intensificação do El Niño pode gerar perda de 25% da produção, segundo Celírio Inácio da Silva, diretor executivo da Abic.
Milho, carne e o efeito em cascata
Em anos de El Niño, a produtividade global do milho cai em média 4%, aponta o Itaú BBA. No Brasil, o excesso de chuvas no Sul preocupa mais do que a seca no Centro-Oeste — o risco é de menor produtividade e maior incidência de doenças. Alguns produtores já avaliam substituir o milho pelo sorgo.
O impacto tende a se estender à cadeia de proteínas: se o preço do milho subir em 2027, a carne deve encarecer junto, já que o grão é componente central da ração para criação em confinamento.
Para a laranja, temperaturas acima da média no cinturão citrícola paulista podem prejudicar a florada entre setembro e novembro, causando abortamento de flores e queda de frutos jovens. A safra já estava estimada menor por razões de mercado — o El Niño aprofunda esse quadro.
A cana-de-açúcar no Centro-Sul, responsável por cerca de 90% da moagem nacional, enfrenta risco de chuvas fora de época, que reduzem a qualidade da matéria-prima e atrasam o acúmulo de sacarose.
O cenário deve pressionar a inflação. O Ministério da Fazenda sinaliza revisão da projeção oficial para 2026 acima dos 4,5% estimados em maio, com os alimentos pesando no índice.
Quando a NOAA confirmou oficialmente o El Niño em 2026, o debate entre climatologistas já havia se deslocado para uma preocupação maior: o episódio pode se tornar um super El Niño — hipótese que agora pesa diretamente sobre as estimativas de safra.
Dias antes deste levantamento, a Organização Meteorológica Mundial emitiu alerta de que o El Niño deve atingir pico forte entre novembro e fevereiro — exatamente a janela em que os impactos sobre milho e café tendem a se intensificar.
A ameaça ao setor produtivo expõe um problema estrutural: o Brasil ainda não tem uma política permanente de adaptação a eventos climáticos extremos, a despeito das tragédias recentes que já evidenciaram a fragilidade do país.
Regiões que podem se beneficiar
Nem todo o cenário é adverso. No Nordeste, o baixo volume de chuvas e o calor favorecem a colheita do feijão. No Sul, as chuvas acima da média beneficiam culturas de inverno, segundo o Inmet. A soja tende a ter crescimento de produtividade de até 5% em anos de El Niño, puxada por Brasil, EUA e Argentina.
