A Petrobras e a mexicana Pemex assinaram um memorando de entendimento válido por dois anos para cooperar na exploração e produção de petróleo, celebrado com videochamada entre Lula e a presidente Claudia Sheinbaum.
Especialistas ouvidos pela DW veem complementaridade técnica entre as estatais, mas alertam: o texto não é vinculante e não obriga nenhuma das duas a investir um centavo no projeto.
Divisão técnica clara, mas sem obrigação de investir
No papel, as duas estatais se complementam: a Petrobras acumulou expertise em exploração de águas profundas e em depósitos de sal, que viabilizou a produção na Bacia de Santos, enquanto a Pemex conhece o subsolo mexicano mas carece de tecnologia para explorar reservas semelhantes sob os depósitos de sal do Golfo do México. É essa lacuna que o novo memorando tenta preencher.
Gonzalo Monroy, CEO da consultoria GMEC, reconhece o potencial, mas aponta a fragilidade jurídica do texto: “há uma palavra no memorando que me deixa pouco otimista: afirma que o acordo não é vinculativo; nem a Pemex nem a Petrobras são obrigadas a investir nada”. O memorando assinado em junho já trazia essa mesma cláusula, hoje repetida no pacto anunciado — sem previsão de aporte financeiro de nenhuma das partes.
Para Adriano Pires, fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), o cenário legal mexicano também pesa contra a execução prática do acordo. Segundo Monroy, desde a contrarreforma do petróleo promovida por Andrés Manuel López Obrador, “as estruturas atualmente previstas em lei, um contrato de prestação de serviços ou uma joint venture, não oferecem à Petrobras a rentabilidade necessária para investir no México”.
Etanol sob pressão dos EUA e cálculo eleitoral dos dois lados
O segundo acordo, voltado a refino e biocombustíveis, é tratado por especialistas como algo à parte do núcleo energético da parceria. Pires lembra que “o etanol é produzido no Brasil pelo setor privado, não pela Petrobras”, enquanto Monroy destaca que o México sofre pressão simultânea dos Estados Unidos, que produzem etanol de milho, e do Brasil, exportador do combustível extraído da cana-de-açúcar.
Para os analistas, o anúncio responde mais a cálculos políticos do que a um plano industrial. Sheinbaum negocia a revisão do USMCA sob pressão de Washington sobre o setor energético mexicano, enquanto no Brasil, ano eleitoral, Pires associa ao calendário político até mesmo a recém-anunciada descoberta de indícios de petróleo na Foz do Amazonas, cuja viabilidade comercial só deve ser confirmada em pelo menos quatro anos.
O ceticismo dos especialistas remete a um precedente doloroso: a antiga parceria entre Petrobras e PDVSA, da Venezuela, que resultou na refinaria de Recife — apontada por Pires como “a mais cara do mundo” e manchada pela Lava Jato, sem qualquer aporte de capital venezuelano. Para Ohep, a sobrevivência do novo acordo depende inclusive da reeleição de Lula.