O Grupo Casas Bahia, um dos maiores varejistas do país, pediu recuperação judicial neste domingo na Justiça de São Paulo para renegociar dívidas, decisão aprovada pelo Conselho de Administração e pelo acionista controlador diante de juros altos, crédito restrito e queda no consumo.
O pedido abrange a própria holding e outras nove empresas do grupo, entre elas a fabricante de móveis Bartira, e tem como objetivo renegociar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas. O processo foi protocolado no Foro Central Cível de São Paulo, especializado em falências. A companhia afirma que vai manter lojas físicas, comércio eletrônico e demais canais de venda em funcionamento.
Em comunicado ao mercado, a Casas Bahia atribuiu o pedido de recuperação judicial à piora do cenário econômico, marcada por juros elevados, restrição ao crédito, aumento dos custos financeiros e redução do consumo. Com a Selic em 14% ao ano, tanto o custo do crédito para o consumidor quanto as despesas financeiras das empresas ficaram mais onerosos — condição que especialistas apontam como um dos vetores centrais da onda de reestruturações no varejo. A empresa afirmou que não conseguiu concluir alternativas de captação de recursos que estavam em negociação antes do protocolo.
“Nesse cenário de liquidez restrita, o ajuizamento do pedido de recuperação judicial mostra-se necessário e configura mais um passo na direção da reestruturação financeira da companhia, buscando preservar a continuidade das atividades empresariais, proteger a geração de valor futuro e viabilizar uma solução ordenada para o equacionamento de suas obrigações”, diz o comunicado.
Por ter sido solicitada em caráter de urgência, a medida ainda precisa ser ratificada pelos acionistas em Assembleia Geral Extraordinária, que será convocada pela companhia nos próximos dias.
A tentativa de evitar os tribunais já vinha de antes. Em meados de 2023, a companhia lançou um Plano de Transformação para reduzir custos e aumentar a eficiência operacional — na primeira fase, fechou 55 lojas deficitárias e eliminou cerca de 8.600 postos de trabalho. Em 2024, realizou uma recuperação extrajudicial e renegociou cerca de R$ 4,1 bilhões em dívidas com instituições financeiras. Em seguida, em 2025, a gestora Mapa Capital negociava assumir o controle da varejista em troca de cerca de R$ 1,6 bilhão em dívidas detidas por Bradesco e Banco do Brasil — reestruturações que não foram suficientes para impedir o pedido protocolado agora. “Quando uma empresa chega a uma recuperação judicial, normalmente estamos falando de uma dificuldade que foi se acumulando”, afirma Letícia Rocha Carneiro, advogada tributarista.
Mudança de comando em meio à crise
No mesmo domingo do pedido de recuperação judicial, a Casas Bahia anunciou mudanças na liderança. Fábio Spina, vice-presidente das áreas Jurídica e Tributária desde 2024, deixou o cargo, mas seguirá prestando consultoria durante a reestruturação. Sírley Lima assume no lugar dele e passa a comandar as áreas Jurídica, Tributária, Compliance e Controles Internos — soma mais de 20 anos de experiência, com passagens por Heineken, Pernod Ricard, Souza Cruz e EY.
O Conselho de Administração também perdeu dois integrantes, Jackson Schneider e Rogério Calderón. Cláudia Quintella Woods passou a integrar o Comitê de Auditoria Estatutário, e André Luiz Helmeister assumiu vaga no Comitê de Finanças. Schneider, apesar de deixar o colegiado, segue à frente dos comitês de auditoria, riscos, compliance e investigações internas.
As mudanças vieram no mesmo dia em que a companhia registrou prejuízo de mais de R$ 10 bilhões no segundo trimestre, resultado que reflete o plano de redimensionamento da operação, incluindo o fechamento de 298 lojas e a demissão de cerca de 3 mil funcionários — o grupo emprega atualmente mais de 20 mil pessoas. Analistas do BTG Pactual apontam o canal online — em parceria com o Mercado Livre — como uma das principais alavancas para a retomada do crescimento, ao lado de medidas de redução de custos e controle de estoques. Analistas do Citi, por sua vez, avaliaram que o pedido de recuperação judicial é marginalmente negativo para o Mercado Livre, e citaram como possível alternativa uma futura parceria da plataforma com o Magazine Luiza — que já mantém acordo comercial semelhante com a Amazon —, embora também destaquem que o Mercado Livre poderá se beneficiar de melhores negociações com fornecedores.
O caso se soma a uma onda de reestruturações de grandes grupos brasileiros em 2026: em março, GPA e Raízen recorreram à recuperação extrajudicial para renegociar juntas cerca de R$ 70 bilhões em dívidas, pressionadas pelo mesmo cenário de juros elevados e crédito restrito.
No mesmo dia do protocolo da Casas Bahia, a rede de móveis e eletrodomésticos Marabraz também entrou com pedido de recuperação judicial — na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo —, buscando renegociar cerca de R$ 140 milhões em dívidas. A empresa, fundada por uma família de origem libanesa que iniciou suas atividades na década de 1950 e se tornou uma das principais redes do estado de São Paulo, citou o cenário desafiador do varejo, a dificuldade de acesso ao crédito e a ruptura na estrutura familiar que dava suporte às operações. As lojas, segundo a companhia, seguirão em funcionamento durante o processo.
Ainda nesta segunda-feira (17), o presidente-executivo da Casas Bahia, Renato Franklin, afirmou que a empresa trabalha com um cenário econômico mais difícil em 2027 do que em 2026. Segundo ele, o plano de fechamento das quase 300 lojas foi estruturado em “onda única”, já considerando uma possível piora nas condições de crédito ao consumidor — com o objetivo de não gerar ansiedade por novos ajustes. “O endividamento vai continuar e algumas alavancas que deram fôlego para o consumo este ano vão criar um passivo no futuro, o que pode gerar uma deterioração do cenário de crédito”, afirmou Franklin. O executivo acrescentou que a Casas Bahia está cada vez mais restritiva na concessão de financiamentos aos consumidores.
Para especialistas, contudo, o processo por si só não garante a sobrevivência da empresa. “Recuperação judicial apenas ‘compra tempo’”, afirma Marcos Pelozato, advogado especialista em recuperações judiciais. O sucesso depende, segundo ele, da capacidade de a empresa voltar a gerar caixa de forma sustentável e trabalhar com margens saudáveis.
Ações BHIA3 caem 30% e acumulam desvalorização de 99,86% desde o pico
O anúncio da recuperação judicial derrubou as ações da companhia na Bolsa. Os papéis da Casas Bahia (BHIA3), que na sexta-feira (14) haviam fechado a R$ 0,66 — último pregão antes do protocolo —, chegavam a R$ 0,46 nesta segunda-feira (17) por volta das 10h41, queda de 30% no dia.
A trajetória é uma das mais dramáticas da Bolsa brasileira dos últimos anos. No auge da empresa, em 2020, as ações chegaram a ser negociadas por cerca de R$ 489,08 ajustados; desde então, acumulam desvalorização de 99,86%. Apenas desde a recuperação extrajudicial de abril de 2024, quando os papéis valiam R$ 7,30, a perda chega a 87,9%.
Com a cotação abaixo de R$ 1, os papéis passaram a integrar a categoria conhecida no mercado como penny stocks — ações de empresas em grave dificuldade financeira que tendem a apresentar forte volatilidade. A companhia abriu capital na Bolsa em dezembro de 2013, quando ainda se chamava Via Varejo, em uma operação que movimentou cerca de R$ 2,8 bilhões; ao longo dos anos, adotou os nomes Via S.A. e, por fim, Grupo Casas Bahia, sob o ticker BHIA3.