Uma pesquisa da consultoria CLA Brasil, divulgada com exclusividade ao g1, revela que 72,7% dos profissionais brasileiros acreditam que as empresas toleram comportamentos abusivos de chefes quando eles entregam bons resultados.
O levantamento, que ouviu 303 profissionais, mostra que a pressão por metas normaliza gritos, humilhações e cobranças excessivas — e que 87,8% dos entrevistados já viram colegas pedirem demissão por não suportar esse tipo de tratamento.
Cultura da alta performance blinda maus gestores
Para especialistas ouvidos pela pesquisa, gestores que batem metas ganham influência dentro das empresas e passam a ser vistos como profissionais difíceis de substituir. “Para algumas pessoas, a regra fica mais flexível. Ainda que isso não esteja escrito em lugar nenhum, os funcionários percebem essa diferença de tratamento”, afirma a especialista consultada pelo levantamento.
Gritos, humilhações públicas, ironias frequentes, exposição de erros diante da equipe e cobranças exageradas estão entre os comportamentos tolerados quando o chefe é visto como sinônimo de sucesso. Segundo a pesquisa, a pressão excessiva muitas vezes parte dos níveis mais altos da hierarquia e se reproduz por toda a cadeia de liderança — quem não se adapta ao modelo tende a sair, e quem permanece repassa o mesmo comportamento à própria equipe.
Medo de retaliação trava denúncias
O estudo aponta que 94,5% dos profissionais temem retaliação ao relatar um caso de assédio, e apenas 52,9% confiariam em fazer uma denúncia formal atualmente. Outros 29,4% responderam “talvez” e 17,6% disseram que não confiariam. A confiança despenca conforme a reputação do acusado: entre quem acredita que a empresa trata bem os relatos, 87,5% denunciariam uma situação de assédio, percentual que cai para 12,9% entre os que não confiam na resposta da organização.
O custo invisível da liderança abusiva
Segundo a especialista, um gestor abusivo pode até entregar bons números no curto prazo, mas cobra uma conta alta mais adiante. “Existe ainda um custo menos visível: a perda de confiança. Quando funcionários deixam de se sentir seguros para discordar, pedir ajuda ou apontar problemas, a empresa perde informações importantes. Por isso, uma liderança que entrega resultado destruindo o ambiente ao redor pode estar criando uma falsa eficiência”, diz.
A pesquisa da CLA Brasil mostra que a maioria das empresas já tem ferramentas para lidar com o problema: 81,4% dos entrevistados trabalham em locais com políticas sobre assédio e conduta, 74,6% conhecem bem essas regras e 67,5% afirmam que suas empresas promovem capacitações sobre o tema. O desafio, segundo o levantamento, não é criar novas regras, mas fazer com que os funcionários acreditem que elas valem também para os chefes que mais entregam resultados.