Meio ambiente

MPF aponta 260 mil bois ilegais em frigorífico de Rondônia

Irmãos Gonçalves é o único grande frigorífico da Amazônia a recusar auditoria do MPF sobre desmatamento e trabalho escravo
MPF investiga bois ilegais em frigorífico de Rondônia; floresta amazônica ameaçada pelo desmatamento

O Ministério Público Federal apontou nesta quinta-feira (20) que o frigorífico Irmãos Gonçalves, maior de Rondônia e sexto maior da Amazônia Legal, abateu 260.952 bois ligados a desmatamento, trabalho escravo e outras irregularidades entre 2023 e 2024.

O total representa 32,6% dos 800.141 animais processados pela empresa no período, segundo o 3º ciclo de auditorias do TAC da Carne. Diferente de JBS, Marfrig e Minerva, o frigorífico se recusou a entregar dados de compras ao MPF.

Frigorífico recusa transparência

Segundo o procurador da República Gabriel de Amorim Silva Ferreira, responsável pela apuração em Rondônia, gestores do frigorífico teriam informado ao MPF que contratam monitoramento socioambiental próprio, mas que não iriam se sujeitar às auditorias do órgão. “Por que a empresa se recusa a ser transparente com a sociedade civil?”, questionou Ferreira.

Diante da ausência de dados fornecidos voluntariamente, o MPF recorreu a informações públicas e cruzou remessas de gado com bases de desmatamento, unidades de conservação, terras indígenas e cadastros de trabalho escravo. O procurador afirmou que o órgão vai dar “atenção especial” ao frigorífico, classificado como “muito grande” e com responsabilidade proporcional ao seu porte.

O trabalho escravo está no centro das acusações contra o frigorífico Irmãos Gonçalves — irregularidade que, meses antes, já havia custado à JBS uma ação de R$ 118 milhões movida pelo Ministério Público do Trabalho no Pará.

Não é a primeira vez que a empresa é responsabilizada por irregularidades ambientais. Em 2024, a Justiça condenou o frigorífico Irmãos Gonçalves, além do Distriboi e de três pessoas físicas, ao pagamento de R$ 4,2 milhões por desmatamento ilegal e criação de gado dentro da Reserva Extrativista Jaci-Paraná.

Outros frigoríficos têm resultados melhores

Entre os seis maiores frigoríficos avaliados pelo MPF na Amazônia, apenas a JBS registrou não conformidades, além do Irmãos Gonçalves. Nas unidades da empresa no Acre, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins, 10.941 cabeças de gado tinham origem comprovadamente irregular — mas o percentual não ultrapassou 3% em nenhum estado, dentro da margem de tolerância de 4% definida pelo MPF.

Em nota, a JBS informou que registrou índice de conformidade de 97,62% nas compras de bovinos na Amazônia e que as inconformidades identificadas concentraram-se exclusivamente em aspectos documentais, sem nenhuma não conformidade nos critérios socioambientais avaliados. Marfrig e Minerva, por sua vez, tiveram 100% de aprovação nas auditorias, sem nenhuma compra irregular registrada.

O 3º ciclo unificado do TAC da Carne, divulgado nesta quinta-feira, identificou ao todo 134 mil cabeças de gado ilegal em seis estados da Amazônia Legal — e o caso do frigorífico Irmãos Gonçalves concentra a parcela mais grave do levantamento, conforme mostra reportagem sobre como a carne de gado ilegal da Amazônia chega ao prato do consumidor.

Procurado pela reportagem, o frigorífico Irmãos Gonçalves não retornou o contato até a publicação deste texto.

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