Colisões entre veículos e antas nas rodovias de Mato Grosso do Sul mataram 51 pessoas nos últimos 13 anos, aponta levantamento da Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB-IPÊ). O estado lidera as mortes de animais silvestres em acidentes de trânsito no país.
O caso mais recente aconteceu em 4 de agosto, quando um homem e uma adolescente de 14 anos morreram na BR-267 após o carro em que estavam colidir com uma anta e, na sequência, bater de frente com uma carreta carregada de etanol.
O acidente na BR-267
Rafael José Balem e Mariana de Souza Bianchin, de 14 anos, estavam em um carro de passeio quando, segundo apuração inicial da polícia, o veículo atingiu uma anta que atravessava a pista. O animal morreu na hora e o motorista perdeu o controle da direção, invadindo a faixa contrária.
A carreta que trafegava no sentido oposto, carregada com etanol, não conseguiu desviar a tempo. Com a força do impacto, o caminhão tombou e as duas vítimas do carro de passeio morreram no local.
Escala do problema em MS
Segundo o INCAB-IPÊ, cerca de 100 antas morrem atropeladas por ano nas rodovias de Mato Grosso do Sul, que cortam áreas de Pantanal e Cerrado. Entre as carcaças analisadas, foram identificadas 120 fêmeas e 209 machos, além de 371 animais cujo sexo não pôde ser determinado pelo estágio de decomposição. O levantamento também registrou 284 antas adultas, 109 subadultas, 36 filhotes ou juvenis e três fetos de fêmeas prenhes.
A anta é o maior mamífero terrestre da América do Sul e pode pesar até 300 kg, o que torna qualquer colisão potencialmente fatal tanto para o animal quanto para os ocupantes do veículo. Ao menos 100 pessoas já se envolveram em acidentes graves com animais de grande porte nas estradas do estado, segundo a organização.
De quem é a responsabilidade
O INCAB-IPÊ aponta que um dos principais entraves para reduzir os acidentes é a ideia de que cabe apenas aos motoristas evitar a colisão. Respeitar limites de velocidade e sinalização ajuda, mas não impede a entrada repentina de um animal na pista. O Código de Defesa do Consumidor garante o direito a um serviço seguro nas rodovias, e a Constituição Federal atribui ao Poder Público a responsabilidade pela proteção do meio ambiente.
De acordo com estudos citados pela iniciativa, medidas voltadas a influenciar o comportamento do animal — como passagens de fauna, cercas direcionadoras e sinalização específica — são mais eficazes do que ações que dependem apenas do comportamento do motorista, podendo reduzir as colisões em até 80%.
Em maio, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto que obriga concessionárias a instalar passagens de fauna, redutores de velocidade e cercas nas rodovias — exatamente o tipo de intervenção estrutural apontada pelo INCAB-IPÊ como capaz de reduzir drasticamente os atropelamentos.
O problema não se limita às antas nem a Mato Grosso do Sul: em agosto do ano passado, duas jaguatiricas foram encontradas mortas em rodovias do interior de São Paulo, reforçando que o atropelamento de fauna silvestre é uma crise nacional.