Um estudo de Fase 3 divulgado nesta quarta-feira (19) mostrou que a vacina personalizada de mRNA intismeran, associada à imunoterapia pembrolizumabe, reduziu o risco de o melanoma voltar ou se espalhar após a cirurgia.
É o primeiro resultado positivo de Fase 3 para uma vacina terapêutica de mRNA contra o câncer — mas o melanoma é só a ponta mais avançada de uma tecnologia que já é testada também em tumores de pâncreas, mama, pulmão, rim e bexiga.
Como as vacinas personalizadas são feitas
Diferentemente dos imunizantes preventivos contra gripe ou Covid-19, essas vacinas são terapêuticas: só entram em ação depois do diagnóstico. Uma amostra do tumor, retirada por cirurgia ou biópsia, é sequenciada para identificar mutações e neoantígenos — alvos que orientam o sistema imunológico a atacar as células cancerígenas. Essas informações são codificadas em RNA mensageiro para estimular os linfócitos T. No caso do intismeran, cada fórmula pode carregar até 34 neoantígenos do tumor de um único paciente, o que explica por que duas pessoas com o mesmo câncer recebem vacinas diferentes.
O que mostrou o estudo com o melanoma
No ensaio INTerpath-001, 1.137 pacientes com melanoma de alto risco já operados receberam intismeran com pembrolizumabe ou só o imunoterápico. A combinação aumentou o tempo sem retorno do câncer e sem metástases à distância — os números completos ainda não foram divulgados, e o estudo segue acompanhando os pacientes para medir ganho de sobrevida global. O anúncio, feito pela Merck e pela Moderna, provocou alta imediata de 90% nas ações da Moderna.
Outros tumores em teste, com evidências ainda desiguais
No câncer de pâncreas, um estudo de Fase 1 com 16 pacientes mostrou resposta imune duradoura, mas sem grupo comparador para confirmar o benefício. Já no câncer de mama triplo-negativo, 11 de 14 pacientes de outro estudo pequeno seguiram sem recorrência. Ensaios de Fase 3 para câncer de pulmão de células não pequenas avançam com Moderna e Merck, enquanto a BioNTech testa o BNT116, uma versão de alvos comuns — não individualizada — que controlou a doença em 80% dos pacientes na fase inicial. Rim e bexiga também têm estudos em andamento, ainda em estágios preliminares.
A aposta central é combinar vacina e imunoterapia, já que uma ajuda o sistema imune a reconhecer o tumor e a outra reduz os mecanismos de escape das células cancerígenas. No Brasil, essa dependência do pembrolizumabe ganha um capítulo à parte: em março, o Butantan fechou acordo para produzir o imunoterápico no país e ampliar o acesso pelo SUS. O maior obstáculo, porém, segue sendo escalar uma vacina feita sob medida: a produção de cada dose pode levar de 60 a 120 dias, o que ainda pesa no custo e no tempo de tratamento.