A Polícia Federal investiga um esquema de produção clandestina de anabolizantes falsificados no Brasil, preparados em laboratórios improvisados com fogão e panela, sem qualquer controle sanitário.
Segundo as investigações, o esquema é liderado por Roberto Carlos Pereira de Carvalho, o Jiraiya, que mantinha laboratórios em Brasília, João Pessoa e São Paulo, abastecidos com matéria-prima contrabandeada do Paraguai.
Produção improvisada em fogão e panela
De acordo com a investigação, os anabolizantes eram preparados de forma rudimentar: quando a mistura não dissolvia corretamente, era levada novamente ao fogo. Áudios apreendidos em um celular mencionam o uso de banho-maria e a necessidade de “dissolver tudo de novo” — um método distante dos protocolos exigidos na fabricação regular de medicamentos.
Os insumos usados no preparo entravam no Brasil escondidos dentro de peças de motocicleta, vindos de uma loja em Cidade do Leste, no Paraguai. Depois de atravessar a fronteira em Foz do Iguaçu, o material era embalado e distribuído para os laboratórios em diferentes estados.
Emagrecedores com clembuterol
O esquema não se limitava aos anabolizantes. Um dos investigados também fabricava produtos para emagrecimento com clembuterol, substância descrita nas conversas apreendidas como medicamento de uso veterinário. Segundo um dos áudios recuperados pela polícia, clientes chegaram a apresentar sintomas após consumir os produtos, e um trecho relata o caso de uma mulher que acordou durante a madrugada com falta de ar.
Aparência de produto importado escondia risco
Para dar credibilidade aos produtos, a organização usava rótulos com linguagem associada a outros países, criando a falsa impressão de uma origem estrangeira confiável. Depois de embalados, os anabolizantes eram vendidos por redes sociais, lojas de suplementos e clínicas de estética — deixando o consumidor sem garantia real sobre o que, de fato, estava consumindo.
A prisão de Jiraiya no Paraguai dois dias antes revelou o tamanho do esquema, com o bloqueio de R$ 32 milhões em bens e a identificação de uma influenciadora fitness ligada à rede de venda. A mesma fronteira de Foz do Iguaçu já havia servido de rota para outro contrabando: em abril, o país bateu recorde de apreensões de canetas emagrecedoras piratas, escondidas em canos de escape e embalagens de salgadinho.
Os investigados respondem por tráfico de drogas, organização criminosa, lavagem de dinheiro e falsificação de produto medicinal. As defesas afirmam que os fatos serão esclarecidos ao longo do processo; a reportagem não conseguiu contato com os advogados de Jiraiya, Allan Manuel e Ana Luiza.