A polícia do Paraguai prendeu, em Ciudad del Este, na fronteira com Foz do Iguaçu, Roberto Carlos Pereira de Carvalho, o Jiraya, líder de um esquema de anabolizantes falsificados que abastecia regiões do Brasil.
A operação identificou laboratórios clandestinos em Brasília, João Pessoa e São Paulo, além de uma rota de contrabando de matéria-prima pela fronteira com o Paraguai, e resultou no bloqueio de R$ 32 milhões em bens.
Produção improvisada em fogão e panela
As investigações avançaram a partir de um celular apreendido em fevereiro de 2025 em um apartamento de Taguatinga, no Distrito Federal, onde a polícia encontrou um laboratório improvisado e prendeu Carlos Henrique Rodrigues de Abreu. Os áudios recuperados no aparelho revelaram como os anabolizantes eram fabricados.
Em uma das conversas, Carlos Henrique descreve o processo: “Tu vai fazer banho-maria na panela, aí ele vai dissolver tudo de novo. Abre um por um, e vai jogando de novo no béquer. Eu tive que abrir 20 vidros. Vinte!” Ele alertou ainda para os riscos da manipulação sem controle químico: “Cozinhar esses trem não dá, véi, porque você pode ser contaminado.”
Rota do contrabando
Segundo a polícia, uma loja em Ciudad del Este fornecia os insumos, que eram embalados em Foz do Iguaçu e enviados a diferentes regiões do país. A rota reforça um problema já identificado por Tropiquim: em abril, as apreensões de canetas emagrecedoras piratas vindas do Paraguai já haviam batido recorde histórico na mesma fronteira.
Seis pessoas foram presas em Foz do Iguaçu, incluindo a gerente da loja fornecedora — o proprietário é considerado foragido. A polícia também deteve André Luiz de Amorim Junqueira, suspeito de falsificar anabolizantes há pelo menos 13 anos e apontado como responsável por ensinar as fórmulas a Carlos Henrique.
Influenciadores e lavagem de dinheiro
Depois de produzidos, os anabolizantes eram divulgados nas redes sociais por Ana Luiza, apontada como influenciadora fitness ligada ao esquema, e por Alam Manoel Lima. Em um áudio, Alam afirma: “Só com Yellow B eu já vendi 80 mil por mês fácil assim, sem nem trabalhar.” A dupla vendia ainda um produto para acelerar o metabolismo e emagrecer.
O caso se soma a outro alerta de Tropiquim: em maio, uma investigação mostrou como o “chip da beleza” esconde anabolizante sem comprovação científica em clínicas de estética — o mesmo canal de distribuição usado pelo esquema de Jiraya.
Segundo a polícia, Alam Manoel e Ana Luiza tinham um restaurante a 25 km do centro de Brasília, usado, segundo a suspeita, para ocultar a origem do dinheiro e distribuir os produtos por meio de motoboys. A Justiça bloqueou R$ 5 milhões em bens do casal e R$ 6 milhões de Roberto Carlos.
Para o presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Neuton Dornelas, os riscos são elevados: as substâncias podem aumentar em três a cinco vezes o risco de morte por doenças cardiovasculares. Os acusados responderão por tráfico de drogas, organização criminosa, lavagem de dinheiro e falsificação de produto medicinal, com penas que podem somar mais de 40 anos de prisão.