A Merck e a Moderna anunciaram nesta quarta-feira (19) resultados preliminares positivos do primeiro ensaio clínico de fase final de uma vacina experimental personalizada contra o câncer, aplicada em pacientes com melanoma após a remoção cirúrgica do tumor.
Batizada de intismeran autogene, ela é fabricada sob medida a partir das mutações genéticas do tumor de cada paciente e foi testada em conjunto com o imunoterápico Keytruda, já usado contra o melanoma.
O anúncio repercutiu imediatamente no mercado financeiro: as ações da Moderna dispararam 90% no pré-mercado desta quarta-feira.
Uma vacina feita sob medida para cada tumor
Diferentemente das vacinas tradicionais, que previnem doenças antes que elas apareçam, a intismeran autogene é produzida depois que o câncer já existe. Uma amostra do tumor é sequenciada para identificar suas mutações genéticas específicas — uma espécie de impressão digital molecular daquele câncer.
A partir desse mapeamento, é fabricada uma molécula de mRNA capaz de codificar até 34 alvos (neoantígenos) exclusivos daquele tumor. Injetada no paciente, ela treina o sistema imunológico a reconhecer e atacar as células que carregam essas mutações. O Keytruda age de outra forma: bloqueia a proteína PD-1, usada pelos tumores para escapar da vigilância imune, o que permite que os linfócitos T atuem com mais eficiência.
O que mostrou o estudo de fase 3
O ensaio reuniu 1.137 pacientes com melanoma cutâneo que haviam passado por cirurgia para retirada completa do tumor, mas ainda corriam risco de recidiva. Dois terços dos participantes receberam a combinação da vacina com Keytruda, e um terço foi tratado apenas com o imunoterápico, por cerca de um ano.
Numa análise interina, feita antes do fim previsto da pesquisa, o grupo que recebeu a combinação apresentou resultados estatisticamente superiores tanto na sobrevida livre de recorrência quanto na sobrevida livre de metástase à distância. Merck e Moderna não divulgaram os percentuais exatos de redução de risco observados nesta etapa, e o estudo completo ainda não foi publicado.
Resultados anteriores reforçam a tendência
A combinação já havia sido testada em um estudo de fase intermediária com pacientes de melanoma de alto risco submetidos à cirurgia, reduzindo o risco de recorrência ou morte em 49% após cinco anos — resultado consistente com os dados de acompanhamento de três anos apresentados em 2023. Segundo o comunicado das empresas, o perfil de segurança da combinação também se manteve estável, sem novos sinais de risco identificados nesta nova análise.
A mesma combinação de mRNA com bloqueio da proteína PD-1 já havia mostrado resultados promissores em camundongos com melanoma, em pesquisa publicada no ano passado que apontou para o potencial de uma abordagem universal contra o câncer.
O estudo divulgado nesta quarta trata especificamente do melanoma, mas a mesma tecnologia está sendo testada em outros tumores dentro do programa INTerpath, que reúne nove estudos de fase 2 e 3 em andamento — incluindo câncer de pulmão de não pequenas células, câncer de bexiga e carcinoma de células renais, além de pesquisas em fase inicial para câncer de pâncreas, estômago e outro tipo de tumor pulmonar. A plataforma é a mesma usada pela Moderna para desenvolver sua vacina contra a Covid-19, que a empresa busca transformar em uma franquia mais ampla de tratamentos.
O Keytruda, parceiro da vacina nos ensaios, é o mesmo medicamento que uma investigação do ICIJ apontou custar mais de R$ 20 mil no Brasil — o que levanta a questão de quem terá acesso a uma terapia combinada de dois tratamentos de alto custo.
Para o oncologista Stephen Stefani, tratamentos personalizados como esse ocupam um espaço cada vez mais relevante na literatura médica, mas os resultados anunciados nesta quarta ainda precisam avançar por outras etapas antes de mudar a prática clínica. “A boa notícia é que sim, estamos avançando em termos de novos conhecimentos. Agora, fato é de transformar isso numa prática disseminada e institucionalizada vai depender de muitos aspectos que não estão ainda disponíveis para avaliar. Há muito tempo se vem falando nessa estratégia de tratar pacientes com esse modelo de vacina. E, obviamente, se eu tenho algum dado que mostrou um aumento de sobrevida global, ele tem que ser olhado com atenção”, explica.