Os pedidos de recuperação judicial das Casas Bahia e da Marabraz nesta semana reacenderam um temor no mercado financeiro brasileiro: o risco de um novo aperto generalizado no crédito para empresas do varejo.
A preocupação remete a janeiro de 2023, quando a fraude contábil da Americanas levou bancos e fundos a restringir empréstimos para todo o setor, por medo de que o problema se espalhasse pela cadeia de fornecedores e concorrentes.
O mesmo temor de 2023, com causas diferentes
Embora as duas crises tenham origens distintas, o receio do mercado é parecido. A Americanas entrou em colapso após a descoberta de inconsistências contábeis e operações de risco sacado não registradas nos balanços. As dificuldades da Casas Bahia, por sua vez, têm raiz macroeconômica: o peso dos juros altos sobre um modelo de negócio que depende do consumo a prazo.
O pedido de recuperação judicial protocolado pela varejista mostra que instituições financeiras estão entre os maiores credores da empresa, em dívidas que somam R$ 17,3 bilhões — o que ajuda a explicar por que o setor bancário observa o caso com cautela redobrada.
Os números do Banco Central sobre a crise anterior dão a medida do que está em jogo. Nos seis meses seguintes ao anúncio do rombo da Americanas, o crédito bancário concedido ao varejo caiu R$ 12 bilhões, e a exposição dos bancos ao setor recuou 5%.
O movimento contrastou com outros setores da economia no mesmo período: os empréstimos à construção civil cresceram 8,4% (R$ 8,7 bilhões), o crédito a serviços para famílias subiu 0,4% e a carteira do setor de transportes ficou estável.
Bastidores: uma tentativa de acordo que não evitou o desfecho
O caminho da recuperação judicial frustra uma tentativa de solução negociada. Em junho de 2025, Bradesco e Banco do Brasil discutiam converter R$ 1,6 bilhão da dívida em ações da varejista, numa aposta para evitar justamente o cenário que se concretizou agora.
A memória da crise da Americanas também ganhou novos contornos recentes. Em junho, a Polícia Federal bloqueou R$ 54 bilhões em ativos de investigados na fraude contábil da varejista, cifra que ajuda a entender a magnitude do rombo e por que o reflexo de cautela dos bancos tende a se repetir diante de qualquer sinal de instabilidade no varejo.
Para o mercado, a pergunta que fica é se o episódio ficará restrito à Casas Bahia e à Marabraz ou se, como em 2023, provocará uma retração mais ampla do crédito bancário destinado ao setor.