O Banco do Brasil cortou sua projeção de lucro para 2026 ao intervalo de R$ 18 bilhões a R$ 22 bilhões, após registrar queda de 53,5% no lucro ajustado do primeiro trimestre — que somou R$ 3,4 bilhões, abaixo das estimativas de analistas.
O custo de crédito também foi revisado para cima: estimado agora entre R$ 65 bilhões e R$ 70 bilhões para 2026, após somar R$ 18,9 bilhões só no primeiro trimestre, alta de 85,8% em um ano.
A presidente-executiva Tarciana Medeiros apontou o agronegócio como principal vetor do estresse, em um cenário mais desafiador para o crédito do banco estatal.
Agronegócio como epicentro do estresse de crédito
A carteira de crédito rural do BB somou R$ 418,4 bilhões ao fim de março, crescimento de 3% na base anual e no trimestre. Mas a inadimplência acima de 90 dias disparou: passou de 2,76% para 6,22% em um ano. Na linha de custeio agrícola, o índice chegou a 10,56%, revelando o nível de tensão na carteira que mais pesa sobre o resultado do banco.
Para enfrentar a deterioração, o BB acelerou o processo de recuperação judicial. “Nos primeiros meses de 2026, já dobramos o número de judicializações realizadas durante todo o ano passado”, afirmou Tarciana Medeiros, classificando a medida como estratégia ativa de recuperação de ativos.
No segmento de pessoas físicas, o banco apresentou desempenho mais equilibrado. A carteira expandida atingiu R$ 361,8 bilhões, alta de 7,7% em 12 meses, sustentada pelo crédito consignado e pelas operações do “Crédito ao Trabalhador”. A inadimplência da pessoa física, porém, avançou para 6,82%, ante 5,10% um ano antes.
Margem financeira cresce, mas provisões pesam
A margem financeira bruta chegou a R$ 27,4 bilhões no trimestre, alta de 14,8% anual. Para 2026, o BB elevou a projeção de expansão da margem bruta para 7% a 11%, ante 4% a 8% anteriormente. Ainda assim, o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) caiu de 16,7% para 7,3% em um ano — reflexo direto das provisões elevadas para cobrir a inadimplência no agro.
A carteira de crédito expandida da pessoa jurídica recuou 2,4% em 12 meses, para R$ 449 bilhões, pressionada pelas micro, pequenas e médias empresas, com contração de 10% no período. O índice de inadimplência acima de 90 dias no segmento encerrou março em 2,87%, queda ante os 3,71% de um ano antes.
BB na contramão dos grandes bancos privados
O resultado contrasta com o desempenho dos concorrentes privados. O Itaú registrou alta de 10,4% no lucro do primeiro trimestre, chegando a R$ 12,3 bilhões — distância que evidencia o peso desproporcionalmente maior da carteira de agronegócio sobre o banco público, ausente na composição dos grandes privados.
O Bradesco, mesmo com pressão do crédito rural de safras antigas nas provisões, cresceu 16,1% no lucro, para R$ 6,8 bilhões. A comparação expõe a vulnerabilidade estrutural do BB em ciclos de estresse do agro, setor no qual o banco detém protagonismo como principal financiador do campo no país.
Apesar da piora nos resultados, o BB aprovou a distribuição de R$ 465,7 milhões em Juros sobre Capital Próprio (JCP) referentes ao primeiro trimestre, com pagamento previsto para 11 de junho, com base na posição acionária de 1º de junho.
Ao final de março, o banco totalizava R$ 2,6 trilhões em ativos e operava 3.942 agências — número gradualmente menor do que as 3.997 registradas no mesmo período do ano anterior.
