O governo dos Estados Unidos negociou acordos com Colômbia, Guatemala e Honduras para realizar operações militares conjuntas contra grupos criminosos em solo latino-americano, anunciou o secretário de Defesa Pete Hegseth na semana passada, durante visita ao Panamá.
Os três países se somam ao Equador, que já realiza missões terrestres ao lado dos EUA desde março, ampliando uma campanha que começou com bombardeios a embarcações suspeitas de tráfico de drogas.
Uma escalada anunciada em fases
A ofensiva militar dos EUA na região não é nova. Desde o ano passado, Washington vem bombardeando embarcações na costa latino-americana sob a acusação de tráfico de drogas — uma campanha que já somava ao menos 157 mortos no Pacífico e no Caribe até março, quase sempre sem que o governo apresentasse provas de que os alvos eram narcotraficantes. Hoje, o número de mortos em mais de 60 ataques marítimos ultrapassa 200 pessoas.
Segundo Hegseth, Colômbia, Guatemala e Honduras aceitaram receber forças americanas em operações conjuntas contra grupos criminosos, replicando o modelo já adotado pelo Equador em março. O secretário de Defesa não detalhou como as ações vão funcionar na prática, mas indicou que, na Colômbia, os EUA cogitam participar diretamente de ataques contra o Exército de Libertação Nacional (ELN), a última grande guerrilha ativa no país.
Alinhamento político impulsiona os acordos
O avanço apoia-se na eleição de líderes latino-americanos alinhados a Trump. Na Colômbia, o presidente Abelardo de la Espriella, que assumiu o cargo este mês, teria pedido pessoalmente maior presença militar americana, segundo Hegseth. “Em qualquer lugar onde você trafica drogas ou ameaça o povo americano ou nossos parceiros, você é um alvo, assim como o Estado Islâmico ou a Al-Qaeda”, disse o secretário, equiparando o narcotráfico ao terrorismo. No sábado, após um ataque com drones do ELN contra tropas colombianas, de la Espriella prometeu que os rebeldes “pagariam um preço alto”.
Um padrão de intervenção com histórico contestado
Os militares dos EUA atuam na América Latina há gerações, fornecendo armas, inteligência e treinamento a governos aliados — um histórico que inclui também apoio a golpes e ditaduras. Desde que retornou ao poder em janeiro de 2025, o governo Trump adotou a postura mais intervencionista na região em décadas: classificou 20 grupos criminosos como organizações terroristas, enviou forças à Venezuela para capturar o presidente do país e envolveu agentes da CIA em operações contra laboratórios de drogas no México.
Para William LeoGrande, especialista em América Latina da American University, operações de combate sustentadas dos EUA ao lado de forças locais seriam “novas e diferentes” em relação ao que Washington já fez na região, segundo declarou à Associated Press. A escalada atual tem origem em uma ordem secreta assinada por Trump em agosto de 2025 autorizando o uso de força militar dos EUA na região, ponto de partida da escalada agora ampliada para acordos de operações conjuntas em solo latino-americano.
Equador e Guatemala mostram os limites do avanço
O Equador é o caso mais avançado de cooperação direta, embora os eleitores tenham rejeitado a instalação de bases militares estrangeiras em referendo de novembro de 2025. Uma investigação do The New York Times revelou que um ataque a um suposto laboratório de drogas no país, em março, destruiu na verdade uma fazenda de gado. Já na Guatemala, o presidente Bernardo Arévalo negou ter aceitado operações conjuntas antidrogas, afirmando que elas seriam ilegais sem aprovação do Congresso — uma ressalva que expõe os limites jurídicos da estratégia americana.