Uma pesquisa da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, publicada na revista Cerebral Cortex, mostrou que o estresse na adolescência provoca alterações duradouras na atividade cerebral, diferente do que ocorre em adultos.
O estudo, feito com ratos e coordenado pelo professor Felipe Villela Gomes, aponta a adolescência como janela crítica de vulnerabilidade, com efeitos que persistem até a vida adulta e podem elevar o risco de ansiedade, depressão e esquizofrenia.
Como o estresse desequilibra os circuitos cerebrais
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O estudo, publicado na revista Cerebral Cortex, avaliou o córtex pré-frontal medial, região ligada à tomada de decisão, controle emocional e comportamento. Os cientistas expuseram ratos adolescentes e adultos a situações repetidas de estresse e, semanas depois, analisaram o funcionamento dos circuitos neurais. Segundo Felipe Villela Gomes, professor da FMRP e coordenador da pesquisa, o cérebro adolescente ainda está em maturação, o que o torna mais vulnerável: \”quando o mesmo protocolo de estresse é aplicado a animais adultos, ele causa alterações de curto prazo, ainda menos pronunciadas\”.
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A pesquisa mediu o equilíbrio entre neurônios excitatórios, que liberam glutamato e funcionam como o \”acelerador\” da atividade cerebral, e neurônios inibitórios GABAérgicos, o \”freio\” do sistema. Nos animais estressados na adolescência, esse freio falhou: houve aumento persistente da atividade excitatória e alterações prolongadas nos neurônios inibitórios, um desequilíbrio que compromete a comunicação entre diferentes áreas do cérebro.
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Oscilações gama e comunicação entre regiões
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Os pesquisadores também identificaram redução duradoura das oscilações gama, padrões elétricos de alta frequência que sincronizam a comunicação entre regiões cerebrais e são importantes para cognição e integração emocional. Segundo o estudo, esse \”ruído\” na comunicação neural prejudica a capacidade do cérebro de integrar pensamentos, emoções e comportamentos.
Sinais de alerta e prevenção
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Os autores destacam que os resultados não significam que todo adolescente exposto ao estresse desenvolverá um transtorno mental — o achado aponta para um aumento de vulnerabilidade em uma fase sensível do desenvolvimento cerebral, especialmente por causa da imaturidade dos neurônios GABAérgicos parvalbumina-positivos, responsáveis por organizar a atividade cerebral.
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Diante do aumento de pressões sociais, frustrações e exposição às redes sociais, os pesquisadores defendem estratégias preventivas, como a terapia cognitivo-comportamental, para identificar precocemente jovens com maior responsividade ao estresse. O achado dialoga com outro levantamento, que mostrou que a transição para o ensino médio compromete o bem-estar emocional dos alunos por mais de dois anos, período que coincide com a janela de vulnerabilidade descrita pela USP.
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A relevância do tema também aparece em dados do IBGE, que já indicavam que meninas são mais vulneráveis à tristeza e à violência na adolescência, cenário que ganha nova camada de explicação diante das evidências neurológicas.