Saúde

Estudo da USP aponta alternativa à reposição hormonal na menopausa

Ativação de receptor específico do estrogênio reduz gordura no fígado em estudo da USP
Campus da USP, onde pesquisadores desenvolveram alternativa à reposição hormonal menopausa

Pesquisadores do Cepid Redoxoma, centro sediado na USP, identificaram um novo alvo terapêutico contra as alterações metabólicas da pós-menopausa: o receptor de estrogênio beta. Publicado na revista Comprehensive Physiology, o estudo mostrou que sua ativação seletiva melhora o metabolismo de lipídios e glicose em modelo animal com deficiência hormonal.

A descoberta abre caminho para novas opções de tratamento para mulheres que não podem fazer terapia de reposição hormonal, como as com risco de tumores hormônio-dependentes ou idade acima de 65 anos.

Um receptor pouco estudado revela potencial terapêutico

O estrogênio atua nas células por meio de três tipos de receptores: os nucleares alfa (ERα) e beta (ERβ), que regulam a expressão genética, e os de membrana, ligados a respostas rápidas. A terapia de reposição hormonal com estradiol ativa os três simultaneamente — inclusive as vias associadas aos efeitos proliferativos em tecidos como mama, útero e ovários, que podem favorecer tumores hormônio-dependentes.

Enquanto o receptor alfa já era associado à melhora do metabolismo energético e ao aumento da sensibilidade à insulina, o papel do receptor beta seguia pouco explorado desde sua descoberta, nos anos 1990, pelo grupo do sueco Jan-Åke Gustafsson. “O que eu acho legal nesse trabalho é que focamos no receptor de estrogênio do tipo beta, que ainda é pouco investigado pelo seu papel em metabolismo, e conseguimos mostrar que ele é um potencial alvo de investigação”, afirma Débora Santos Rocha, autora principal do estudo, feito no Laboratório de Metabolismo Energético do Instituto de Química da USP.

O que os experimentos mostraram

Para testar a hipótese, a equipe usou o composto diarylpropionitrile (DPN), que se liga seletivamente ao receptor beta, em ratas com os ovários retirados cirurgicamente — procedimento que simula a pós-menopausa. O tratamento restaurou os níveis de glicose em jejum, reduziu o tecido adiposo retroperitoneal e reverteu o aumento de triglicerídeos, colesterol e ácidos graxos livres observado nos animais castrados.

A análise do lipidoma hepático, feita com o grupo de Sayuri Miyamoto, mostrou que o tratamento não reduz a quantidade total de gordura no fígado, mas muda sua composição. “É como se o tratamento favorecesse um perfil de estoque mais protetor, porque a célula consegue armazenar gordura, mas, dependendo do tipo de lipídio que acumula, esse armazenamento pode ser tóxico”, explica Débora Rocha.

Impacto para a saúde da mulher

Enquanto a Anvisa alertava sobre o uso indevido de testosterona em mulheres na menopausa, pesquisadores da USP avançavam em direção oposta: buscar alvos moleculares capazes de entregar os benefícios metabólicos do estrogênio sem acionar as vias proliferativas ligadas ao risco de tumores hormônio-dependentes.

Segundo Débora Rocha, a reposição hormonal não é indicada para mulheres com mais de 65 anos nem para aquelas com risco elevado de câncer de mama ou outros tumores ginecológicos — populações que ficam desassistidas justamente num período longo da vida. Para Alicia Kowaltowski, orientadora do estudo, a dislipidemia da pós-menopausa eleva o risco de doenças cardiovasculares, AVC, diabetes tipo 2 e doenças neurodegenerativas, o que reforça o potencial terapêutico da descoberta.

Próxima etapa da pesquisa

Com apoio de um Projeto Geração da Fapesp, Débora Rocha planeja repetir os testes em um modelo de depleção folicular, que reproduz de forma mais gradual a transição para a menopausa, ao contrário da castração cirúrgica usada nesta primeira fase. A meta é mapear alvos terapêuticos tanto durante quanto após o processo.