Saúde

Exoma detecta só 1% a 2% do DNA e pode deixar doenças raras sem diagnóstico

Reanálise de exames antigos e sequenciamento do genoma completo abrem novo caminho para famílias sem resposta
Mãos montando símbolo do SUS evocam desafio do exoma negativo diagnóstico genético de doenças raras

Famílias que buscam diagnóstico para doenças raras esbarram em um limite pouco conhecido: o sequenciamento do exoma, tratado por médicos e laboratórios como o teste genético mais completo, analisa apenas 1% a 2% de todo o DNA humano.

É o caso de uma criança de quatro anos com epilepsia resistente a três remédios, atraso no desenvolvimento e traços do espectro autista: o exoma negativo levou médicos a encerrar a investigação genética e encaminhá-la à fisioterapia sem diagnóstico definitivo.

Os 98% do DNA que o exoma não examina

O sequenciamento do exoma investiga apenas os genes codificantes — trechos do DNA que carregam instruções diretas para a produção de proteínas. Esses genes somam de 1% a 2% de todo o material genético humano. O restante, chamado de DNA não codificante, funciona como um painel de interruptores que liga e desliga genes, além de abrigar regiões repetitivas, o DNA das mitocôndrias e marcas químicas epigenéticas — como as que causam as síndromes de Prader-Willi, Angelman e Beckwith-Wiedemann.

Essa lacuna aparece nos números: o exoma só encontra a causa genética em cerca de 27% das crianças com atraso no desenvolvimento e em 16% dos casos de autismo. Para a maioria das famílias, a investigação termina com o rótulo de doença sem causa conhecida.

O problema está também na forma como o resultado é comunicado. Quando o laudo diz que nenhuma alteração foi encontrada, a frase é tecnicamente correta para os limites daquele exame específico — mas costuma ser interpretada pelas famílias como a confirmação de que o problema do filho não é genético. Essa diferença separa quem continua a busca por um diagnóstico de quem desiste dela cedo demais.

A limitação técnica do exoma se soma a uma barreira estrutural mais ampla: três em cada quatro brasileiros sequer têm acesso adequado ao diagnóstico genético pelo SUS, conforme mapeou um levantamento publicado em maio.

Reanálise e genoma completo como próximos passos

Antes de encerrar o caso, especialistas recomendam duas alternativas. A primeira é pedir a reanálise dos dados do exoma já coletado: um estudo que acompanhou pacientes com resultado negativo cinco anos antes mostrou que a taxa de diagnóstico saltou de 31% para 53% após a reavaliação clínica combinada a softwares atualizados. Cerca de 42% dos novos diagnósticos vêm de descobertas genéticas recentes, que sequer existiam nos bancos de dados quando o primeiro exame foi feito.

A segunda alternativa é o sequenciamento do genoma completo, que investiga a totalidade do DNA — não apenas a fração codificante. O custo da tecnologia caiu de forma expressiva nos últimos anos, aproximando-se do valor cobrado pelo exoma no passado, o que já permite a médicos prescrever o exame diretamente no consultório. No sistema público, um estudo com 275 pacientes mostrou que a tecnologia já é viável em hospitais brasileiros, revelando mutações hereditárias em 1 a cada 10 casos analisados.

Para os autores da pesquisa, o exoma deve deixar de ser tratado como o teto da investigação genética e passar a ser visto como um primeiro degrau — seguido pela reanálise periódica e, quando necessário, pela migração para o genoma completo.

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