O Sistema Único de Saúde vai passar a oferecer o sequenciamento genético de nova geração (NGS) para mulheres com câncer de mama — tecnologia capaz de identificar mutações hereditárias nos genes BRCA1 e BRCA2 que, até agora, estava concentrada na rede privada.
A incorporação foi publicada nesta quarta-feira (13) no Diário Oficial da União, por portaria do Ministério da Saúde. A rede pública terá até 180 dias para começar a ofertar o exame.
O que o teste pode mudar no tratamento
O exame permite determinar se o tumor tem origem hereditária — informação que vai além do diagnóstico e pode redirecionar toda a conduta clínica. Pacientes com mutações nos genes BRCA, por exemplo, tornam-se elegíveis para os chamados inibidores de PARP, terapias-alvo desenvolvidas especificamente para tumores com esse perfil genético.
Sem o teste, essa janela terapêutica pode passar despercebida. A informação genética também orienta decisões sobre cirurgias preventivas e protocolos de rastreamento mais intensivos para familiares em risco.
Impacto além da paciente diagnosticada
Como as mutações BRCA1/2 são hereditárias, o resultado do exame ultrapassa a paciente. Familiares que ainda não desenvolveram câncer podem descobrir que carregam o mesmo risco — e adotar estratégias preventivas antes do surgimento de qualquer tumor.
A dimensão desse impacto ficou evidente em estudo inédito publicado no The Lancet, que encontrou mutações hereditárias em 1 de cada 10 pacientes com câncer no Brasil. Entre os familiares que aceitaram fazer o teste, quase 40% também carregavam a mesma alteração genética, sem saber. O levantamento mostrou que identificar essas mutações precocemente permite adotar ressonância magnética anual, colonoscopias mais precoces e, em alguns casos, cirurgias profiláticas.
Desafio estrutural no SUS
A incorporação do teste representa um avanço, mas especialistas alertam que a oncogenética no SUS ainda está concentrada em poucos centros especializados. O país conta com menos de 500 geneticistas clínicos para uma população de mais de 200 milhões de habitantes — proporção que coloca em dúvida a capacidade de absorver a demanda que o novo exame pode gerar.
Muitos hospitais públicos ainda não dispõem de equipes treinadas para aconselhamento genético nem de fluxo estruturado para acompanhamento familiar, segundo dados do Mapa Genoma Brasil, pesquisa coordenada pelo Hospital BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo.
O otimismo com a medida convive com um histórico de promessas não cumpridas: cinco anos após a sanção da lei que expandiu o teste do pezinho no SUS, a maioria dos estados ainda não implementou as mudanças previstas — o que coloca em xeque o prazo de 180 dias estabelecido pelo Ministério da Saúde para a oferta do novo teste genético.
