Um consórcio internacional de pesquisadores descobriu que anéis de DNA fora dos cromossomos, chamados ecDNA, podem ser fundamentais para o crescimento do glioblastoma, tipo agressivo de câncer cerebral. A pesquisa analisou amostras de tumores e revelou que esses anéis surgem cedo e carregam genes que tornam o tumor mais resistente. O estudo abre caminho para diagnósticos e tratamentos mais precisos.
Entendendo o papel do ecDNA no glioblastoma
O glioblastoma é um dos tumores cerebrais mais letais e de difícil tratamento, com alta resistência a terapias e poucas opções de cura. Os anéis de DNA extracromossômico (ecDNA) já haviam sido ligados a outros cânceres, mas sua função exata permanecia desconhecida. Em 2022, o Cancer Grand Challenges, com apoio do Cancer Research UK e do National Cancer Institute dos EUA, investiu R$ 130 milhões no grupo internacional eDyNAmiC para investigar o tema.
Utilizando sequenciamento genético, imagens avançadas e modelos computacionais, a equipe analisou tumores de pacientes com glioblastoma. Benjamin Werner, do Barts Cancer Institute da Queen Mary University de Londres, explicou: “Estudamos os tumores como um arqueólogo… investigamos diferentes áreas e simulamos milhões de cenários para entender como esses anéis de DNA surgem e se espalham”.
Foi observado que a maioria dos ecDNAs continha o gene EGFR, crucial para o câncer. Esse gene aparece cedo no desenvolvimento do tumor e acumula mutações que o tornam mais agressivo e resistente.
Impactos e próximos passos
Os cientistas destacam que há uma janela de oportunidade entre o surgimento do ecDNA com EGFR e o aparecimento das variantes mais agressivas. Magnus Haughey, da Queen Mary, afirma que detectar esses anéis precocemente pode permitir intervenções antes que o glioblastoma se torne letal. O estudo também identificou que os anéis podem carregar múltiplos genes cancerígenos, influenciando a evolução da doença e a resposta a tratamentos, o que reforça a necessidade de terapias personalizadas.
O grupo planeja investigar como diferentes tratamentos afetam o ecDNA e expandir a análise para outros tipos de câncer. Charlie Swanton, do Francis Crick Institute, ressalta que o ecDNA é um condutor poderoso da doença e entender sua origem pode permitir diagnósticos e intervenções mais precoces. Paul Mischel, de Stanford, acredita que identificar esses anéis cedo pode tornar o tumor tratável antes de se tornar intratável. David Scott, do Cancer Grand Challenges, destaca o pioneirismo e a colaboração internacional como essenciais para enfrentar os desafios do câncer.