Pesquisadores brasileiros criaram um exame genético capaz de prever se tumores serão resistentes à quimioterapia, facilitando a escolha de tratamentos mais eficazes. O teste analisa mutações no DNA das células cancerígenas, permitindo evitar terapias ineficazes e efeitos colaterais desnecessários.
O estudo, validado em 840 pacientes, foi realizado por uma equipe multidisciplinar de universidades nacionais, com colaboração internacional e apoio de instituições como o Cancer Research UK.
Como funciona o exame genético
O exame identifica mutações específicas no DNA das células tumorais, associadas à resistência aos medicamentos usados na quimioterapia. A tecnologia utiliza o sequenciamento completo do DNA do tumor, detectando padrões de instabilidade cromossômica (CIN), que envolvem alterações na ordem, estrutura e número de cópias dos cromossomos. Essas assinaturas genéticas são comparadas com células normais, permitindo prever a resposta a três tipos principais de quimioterapia: à base de platina, antraciclina e taxano.
Segundo James Brenton, especialista em câncer de ovário do Cancer Research UK Cambridge Institute, “a quimioterapia é um pilar do tratamento do câncer e salva muitas vidas. No entanto, em muitos casos, ela tem sido administrada da mesma forma por mais de 40 anos”. Ele destaca que, com o avanço do sequenciamento genômico, é possível tornar os tratamentos mais eficazes e personalizados.
Benefícios para os pacientes
O principal benefício do exame é a personalização do tratamento. Ao identificar previamente a resistência do tumor, médicos podem direcionar pacientes para terapias com maior chance de sucesso, evitando efeitos colaterais desnecessários. Fiona Barvé, professora aposentada e colaboradora da pesquisa, relata: “Passar pela quimioterapia é um processo físico e mental. Fadiga e efeitos colaterais físicos de longo prazo persistem por meses após o tratamento”. Ela acredita que métodos personalizados são positivos para todos os pacientes, pois reduzem o estresse e o uso de medicamentos desnecessários.
Desenvolvimento, validação e próximos passos
O estudo foi conduzido por uma equipe multidisciplinar de universidades brasileiras, em colaboração com o Centro Nacional Espanhol de Pesquisa do Câncer (CNIO) e a startup Tailor Bio. O teste foi validado em 840 pacientes com diferentes tipos de câncer, comprovando sua capacidade preditiva ao mostrar que pacientes com resistência prevista apresentaram maior taxa de falha no tratamento.
Atualmente, dezenas de milhares de pessoas recebem quimioterapias baseadas em platina e taxanos anualmente, tratamentos que, apesar de eficazes, são tóxicos e causam efeitos colaterais significativos. A nova tecnologia busca evitar terapias ineficazes, melhorando a qualidade de vida dos pacientes.
Os cientistas agora planejam realizar análises adicionais e buscar aprovação regulatória para uso clínico do exame. Para Iain Foulkes, diretor executivo de Pesquisa e Inovação da Cancer Research UK, “os dias em que a quimioterapia era oferecida como um tratamento ‘tamanho único’ estão terminando. Graças a esta pesquisa e outras semelhantes, estamos caminhando para um futuro onde o tratamento personalizado do câncer é uma opção para muitos pacientes”.