Política

Lula reage à desinformação da Argentina e busca diálogo com Trump

Itamaraty confronta narrativa argentina e chanceler cobra fim de "agressões" de Milei
Lula reage à desinformação da Argentina de Milei em crise diplomática com o Itamaraty

O governo Lula identificou manobras de desinformação promovidas na Argentina sobre a origem da crise diplomática com Javier Milei e decidiu agir para esclarecer a população argentina sobre os fatos.

Em paralelo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva articula nova conversa com Donald Trump, a quem chamou de amigo no fim de semana de 8 e 9 de agosto, para reposicionar dados usados pelos EUA para justificar tarifas contra o Brasil.

Origem da crise com Milei

Integrantes da diplomacia brasileira afirmam ter identificado, na Argentina, tentativas de divulgar informações falsas sobre o início do atrito entre os governos de Lula e Milei, numa estratégia que tenta transferir ao Brasil a responsabilidade pela crise.

O chanceler Mauro Vieira tem concedido entrevistas a veículos argentinos para reforçar que o conflito começou com o discurso de Milei na convenção do PL e se agravou dias depois, em nova entrevista do presidente argentino. Nas duas ocasiões, Milei chamou Lula de “presidiário”, “ladrão” e “corrupto”, além de classificar o ministro Alexandre de Moraes, do STF, como “lixo careca”.

Cobrança por fim das ofensas

Ao jornal argentino Clarín, Vieira disse que a Argentina precisa cessar “imediatamente” esse tipo de agressões para que as relações bilaterais, rebaixadas a nível de encarregados de negócios, voltem à normalidade. Segundo o Itamaraty, as falas de Milei repercutiram mal internamente e podem ter motivado um aceno inicial de reaproximação por parte de Buenos Aires.

Bastidores da resposta diplomática

A ofensiva diplomática brasileira ocorre após o Itamaraty rebaixar formalmente as relações com Buenos Aires, em 4 de agosto, retirando o embaixador em protesto às reiteradas ofensas de Milei. Como reflexo direto do rebaixamento, o embaixador argentino no Brasil, Daniel Raimondi, também retornou a Buenos Aires nesta quinta-feira (13), e a representação diplomática da Argentina em Brasília passou a ser conduzida pela encarregada de negócios, María Cortés.

Também nesta quinta, o chanceler Mauro Vieira se reuniu com o embaixador brasileiro na Argentina, Júlio Bitelli, que havia sido chamado a Brasília para consultas quando os ataques de Milei começaram. Segundo o Itamaraty, os dois fizeram uma avaliação do cenário e, como não houve mudança de situação, Bitelli ainda não tem data prevista para retornar a Buenos Aires.

Apesar do discurso público de distensão, a chancelaria argentina divulgou nota afirmando que as relações entre os países “devem responder aos interesses permanentes de seus povos” e não a necessidades políticas do presidente de turno — sinal, para diplomatas brasileiros, de que a disputa ainda não está resolvida. O tom foi reforçado pelo chanceler argentino Pablo Quirno, que em declaração pública afirmou que a região passa por uma “transformação ideológica” e que espera ver o mesmo acontecer no Brasil — referência ao processo eleitoral brasileiro. Internamente, a orientação é “fazer um contraponto às manobras de desinformação apresentando fatos”, resumiu um aliado de Vieira.

A narrativa argentina de que teria havido “xingamentos dos dois lados”, defendida pelo porta-voz da Casa Rosada, é um dos pontos que o Itamaraty quer refutar junto à opinião pública argentina — assim como as acusações sem provas de que o Brasil teria liderado campanha de difamação contra a Argentina durante a Copa do Mundo.