O Brasil rebaixou nesta terça-feira (4) o nível das relações diplomáticas com a Argentina, informou o Itamaraty. O embaixador brasileiro Julio Bitelli permanecerá em Brasília enquanto o presidente argentino Javier Milei mantiver ataques a Lula e a outras autoridades brasileiras.
A decisão foi comunicada por escrito ao embaixador argentino Daniel Raimondi, que deve deixar o país, embora o governo brasileiro descarte, por ora, uma expulsão formal.
Escalada em poucos dias
A crise diplomática entre Brasil e Argentina se intensificou rapidamente após a convenção do PL, em 25 de julho, que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência. No evento, em São Paulo, Milei chamou Lula de “presidiário” e classificou o ministro Alexandre de Moraes, do STF, como “lixo careca”. A resposta inicial do Itamaraty foi convocar o embaixador argentino Daniel Raimondi para formalizar o descontentamento do governo brasileiro.
Dias depois, a imprensa argentina antecipou que Milei recusaria pedir desculpas ao Brasil, fechando o espaço para uma solução diplomática mais branda. Em 27 de julho, em vez de recuar, o presidente argentino republicou cinco posts críticos a Lula em quatro horas, reforçando que as ofensas em São Paulo refletiam uma posição deliberada, não um deslize de discurso.
O embate voltou a piorar no domingo (2), quando Milei, em entrevista à emissora LN+, chamou Lula novamente de “ladrão” e “corrupto” e disse que ele “não é inocente”. O argentino também questionou as decisões judiciais que anularam as condenações de Lula na Operação Lava Jato e afirmou que suas falas foram “espontâneas”. “Agressivo é que alguém roube. É muito mais leve chamar um ladrão de ladrão do que o próprio ato de roubar”, disse, ao comentar a reação do governo brasileiro.
Reação do governo brasileiro
O chanceler Mauro Vieira classificou o episódio como “sem precedentes” e considerou o caso grave, mas descartou, por enquanto, medidas mais duras, como a retirada total de representantes diplomáticos. Lula, que inicialmente evitou comentar as ofensas, endureceu o tom nos dias seguintes e chamou a participação de Milei no evento do PL de “patacoada”.
Em ato do PSB, o presidente brasileiro afirmou que não aceitará interferências externas no processo político do país. A disputa ocorre em meio à corrida eleitoral de 2026, na qual Flávio Bolsonaro desponta como pré-candidato apoiado por Milei.
A Argentina respondeu ao rebaixamento com uma nota da chancelaria que acusou o Brasil de agir por “questões puramente ideológicas”. O governo argentino afirmou que o país está “se isolando do restante da região” e apontou que, nos últimos anos, houve “numerosos episódios” de manifestações políticas e apoios cruzados entre dirigentes dos dois países, mas a Argentina nunca os transformou em incidentes diplomáticos. A nota concluiu que as relações entre Estados devem responder aos “interesses permanentes” dos povos e não ficar subordinadas às “necessidades políticas e/ou pessoais dos governantes de turno”.
O desgaste entre os dois governos preocupa parceiros comerciais, já que Brasil e Argentina são os principais sócios do Mercosul. Por ora, o Itamaraty trata o rebaixamento como uma medida política, sem efeitos anunciados sobre acordos comerciais ou cooperação no bloco.