O chanceler brasileiro, Mauro Vieira, afirmou neste domingo (9), em entrevista ao jornal argentino Clarín, que a Argentina precisa parar imediatamente as agressões ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva para que a relação bilateral volte à normalidade.
A declaração foi dada em Cali, na Colômbia, onde Vieira representa Lula na posse do presidente Abelardo de la Espriella, em meio à crise diplomática provocada pelos ataques recorrentes do presidente argentino Javier Milei.
Relação reduzida ao nível mínimo
Segundo Vieira, que foi embaixador do Brasil em Buenos Aires entre 2004 e 2010, o vínculo entre os dois países está hoje administrado apenas por encarregados de negócios — nível hierárquico abaixo do de embaixador. A situação é consequência direta do rebaixamento diplomático anunciado pelo Itamaraty em 4 de agosto, decisão tomada após nova sequência de ataques de Milei a Lula e ao Supremo Tribunal Federal.
O chanceler classificou como “algo assombroso” o discurso de Milei na convenção nacional do Partido Liberal, que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. No evento, o presidente argentino chamou Lula de “presidiário” e o ministro Alexandre de Moraes, do STF, de “lixo careca”. Vieira disse que episódios semelhantes “se repetiram várias vezes em menos de uma semana” e afirmou esperar que os embaixadores dos dois países retornem a seus postos assim que o quadro atual for revertido.
Vieira nega financiamento de campanha e rótulo de “comunista”
O chanceler classificou como “totalmente falsa” a acusação de Milei de que o governo brasileiro teria financiado uma campanha internacional contra a Argentina, incluindo insinuações sobre a visita do ex-ministro Sergio Massa ao Brasil — motivada, segundo Vieira, por assuntos de interesse comum entre as áreas econômicas dos dois países. O chanceler argentino Pablo Quirno já havia descartado uma ruptura formal com o Brasil, mas acusou o governo brasileiro de agir por “questões puramente ideológicas” — narrativa que Vieira rebateu diretamente na entrevista ao Clarín. Ele também chamou de “surpreendente” a caracterização de Lula como “comunista” por Milei e aliados, afirmando que o presidente brasileiro “jamais negou” nem buscou alterar o caráter capitalista da economia do país.
Pressão por normalização vem de dentro do próprio governo argentino
Apesar do desgaste, Vieira reafirmou que a relação com a Argentina “é muito importante” e que o país segue sendo considerado parceiro estratégico do Brasil, citando a relevância comercial do vínculo bilateral no âmbito do Mercosul. Dias antes da entrevista, a senadora Patricia Bullrich, aliada de Milei, pediu publicamente que o Brasil reenvie seu embaixador a Buenos Aires, sinal de que a pressão por normalização também parte do próprio campo governista argentino.
Na mesma entrevista, Vieira tratou da relação com os Estados Unidos, afirmando que tentativas de interferência nas eleições brasileiras fazem parte da ofensiva americana contra o país, apesar de dois encontros recentes entre Lula e Donald Trump. Questionado sobre a pressão dos EUA para reduzir a influência comercial da China na América Latina, o chanceler defendeu que o Brasil mantém relações equilibradas com múltiplos parceiros e que “a política de pressão e sanções não é útil; o que funciona é a negociação”. Sobre a onda de governos de direita na região, negou que o Brasil esteja isolado, citando encontros recentes com líderes do Chile, Bolívia, Peru e Colômbia.