O endividamento das famílias brasileiras chegou a 82% em julho, o sexto recorde consecutivo, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada nesta quinta-feira (6) pela Confederação Nacional do Comércio (CNC).
O índice subiu 0,4 ponto percentual em relação a junho e avançou 3,5 pontos percentuais frente a julho de 2025. Apesar da leve queda na inadimplência após o início do Desenrola 2.0, cresceu a fatia de famílias com mais da metade da renda comprometida por dívidas.
Renda comprometida atinge maior nível desde março
Em julho, 19% das famílias afirmaram ter mais da metade da renda comprometida com o pagamento de dívidas, o maior índice desde março deste ano. Em média, os consumidores endividados destinam 29,5% da renda mensal para honrar esses compromissos.
Para a economista Carla Beni, professora da FGV, a leve melhora na inadimplência não significa alívio para o bolso das famílias. Segundo ela, o alto nível de endividamento também reflete a cultura do parcelamento no Brasil: o crédito ficou mais acessível, mas não necessariamente mais barato. Usado de forma planejada, pode ser um instrumento importante, especialmente para a compra de bens de maior valor, avalia a economista.
O avanço das dívidas foi desigual entre as faixas de renda. Entre as famílias que recebem até três salários mínimos, o endividamento chegou a 84,9% em julho, o maior entre os grupos pesquisados. Esse grupo foi o único a registrar aumento da inadimplência no mês, de 38,3% para 38,5%, e também viu crescer o percentual de quem diz não ter condições de pagar as contas atrasadas, de 17,6% para 17,8%.
“Muitas pessoas trabalham, mas têm renda variável, especialmente na informalidade. Quando gastos básicos, como combustível e farmácia, passam a ser parcelados, o risco de entrar em uma espiral de endividamento aumenta bastante”, afirma Carla Beni. Já entre as famílias com renda acima de dez salários mínimos, o endividamento avançou no ano e chegou a 72% em julho, mas a inadimplência recuou de 15,4% para 15,1%.
Indicadores de atraso melhoram, mas cautela permanece
Apesar da pressão sobre a renda, alguns números mostraram melhora em julho. O tempo médio de atraso das dívidas caiu pelo terceiro mês seguido, para 64,6 dias, o menor nível desde dezembro de 2025. Também recuou a parcela de inadimplentes com contas vencidas há mais de 90 dias, para 48,5%, o menor patamar desde agosto de 2025.
Na percepção dos próprios consumidores, cresceu o grupo que se considera pouco endividado, de 34,2% em junho para 35% em julho, enquanto os que se dizem muito endividados recuaram de 17,2% para 17,1%.
Para a CNC, parte da melhora está ligada ao programa de renegociação de dívidas, ao avanço da renda média e ao controle da inflação. O Desenrola 2.0, cujo prazo foi prorrogado até 31 de agosto, já renegociou mais de R$ 22 bilhões em dívidas por meio de cerca de 3,6 milhões de acordos fechados, e é apontado como um dos fatores por trás da leve queda na inadimplência.
O presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, afirma que completar seis meses seguidos de recordes no endividamento “tem impactos que são sentidos em curto e médio prazo, não só no comércio”. Segundo ele, há sinais de resiliência com o pagamento de dívidas via Desenrola e o aumento da massa de rendimentos, mas ainda é preciso avançar em medidas que aliviem o orçamento do trabalhador. A confederação alerta que, mesmo com menos atrasos, o volume de dívidas acumuladas mantém o orçamento das famílias sob pressão.