O índice de preços da FAO atingiu o maior nível em três anos, e a Organização das Nações Unidas emitiu um alerta formal: a escalada da guerra no Oriente Médio já impacta diretamente o sistema alimentar global.
Óleos vegetais, trigo e fertilizantes estão no centro da crise. O Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de um terço dos fertilizantes comercializados no mundo — enfrenta bloqueios e tensão militar crescente.
Com o cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã novamente em xeque, o petróleo voltou a ultrapassar US$ 100 por barril, pressionando toda a cadeia de produção de alimentos.
O que explica a alta dos alimentos
O diretor-geral da FAO destacou que a crise já ultrapassou o campo geopolítico e passou a interferir diretamente no abastecimento mundial. Os óleos vegetais lideram a alta, pressionados pelo aumento da demanda por biocombustíveis e pela disparada do preço do petróleo.
Para o trigo, o ponto crítico são os fertilizantes. Antes da guerra, cerca de um terço da oferta global de fertilizantes passava pelo Estreito de Ormuz — rota estratégica hoje dominada por bloqueios e confrontos navais.
O impacto nos fertilizantes pode ser ainda mais grave do que os índices da FAO revelam: segundo o CEO da Yara, um dos maiores fabricantes de fertilizantes do mundo, o bloqueio do Estreito de Ormuz já interrompeu meio milhão de toneladas de produção semanal — volume que pode eliminar até 10 bilhões de refeições por semana globalmente, conforme análise do Tropiquim.
Trégua sob suspeita
Esta semana, novos confrontos agravaram o cenário. O Irã acusou os Estados Unidos de violarem o acordo de cessar-fogo após ataques contra dois navios. O governo iraniano afirmou que, “sempre que uma solução diplomática está sobre a mesa, os Estados Unidos optam por uma aventura militar irreversível”.
Donald Trump, por sua vez, declarou que o cessar-fogo “segue mantido” e classificou os ataques como um “tapinha de amor”. O padrão se repete: em abril, a trégua durou menos de 24 horas antes de novos confrontos reacenderem as tensões.
Petróleo e energia: o alerta do Banco Mundial
O retorno do petróleo à marca de US$ 100 por barril não surpreende analistas. No fim de abril, o Banco Mundial projetou alta de 24% nos preços de energia em 2026 e alertou que o barril de Brent poderia chegar a US$ 115 no pior cenário — projeção que agora se aproxima da realidade, como o Tropiquim antecipou.
A combinação de petróleo caro, rotas bloqueadas e cessar-fogo frágil cria um ambiente de incerteza que os mercados agrícolas já precificam. O aumento nos custos de transporte, energia e insumos se traduz diretamente no preço que chega à mesa dos consumidores ao redor do mundo.
Para países que dependem de importação de alimentos e fertilizantes — incluindo nações do Sul Global —, a crise atual representa uma ameaça concreta à segurança alimentar de populações vulneráveis, num momento em que os sinais diplomáticos seguem contraditórios e os mercados de commodities operam no limite da estabilidade.
