O Exército dos Estados Unidos anunciou nesta semana a criação da Força-Tarefa Conjunta Hemisfério Ocidental, nova fase da Operação Lanças do Sul que passa a incluir o Brasil entre os 19 países convocados para os exercícios militares “Panamax 26”.
Comandada pelo Comando Sul dos EUA (Southcom), a iniciativa promete “pressão sistêmica total” sobre os cartéis de drogas na América Latina — meses depois de o governo Trump lançar uma coalizão anticartel com 16 países vizinhos, da qual o Brasil não faz parte.
Uma operação que já derrubou Maduro
A Operação Lanças do Sul, lançada em 2025, ficou marcada pelos bombardeios contra embarcações no Caribe acusadas de transportar drogas e pela campanha de pressão que culminou na captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro. Agora, rebatizada como Força-Tarefa Conjunta Hemisfério Ocidental, ela entra em nova fase com a meta declarada de “eliminar todas as ameaças” ligadas ao narcotráfico no continente.
O “Panamax 26” é realizado anualmente pelos Estados Unidos e pelo Panamá, mas nunca havia reunido tantas nações. Desta vez, a maioria dos participantes também integra a Coalizão das Américas de Combate aos Cartéis, lançada meses antes pelo governo Trump — exceção feita justamente ao Brasil, ao México e aos europeus Holanda e Reino Unido, que participarão do exercício sem aderir à coalizão.
Em comunicado, os EUA afirmaram que os países convidados “compartilham uma determinação comum de detectar, interromper e derrotar ameaças existentes e emergentes” no hemisfério. A ressalva é que nem todos compartilham o mesmo viés ideológico do governo Trump — caso dos governos brasileiro e mexicano, que mantêm relação mais cautelosa com a agenda de segurança de Washington.
A cooperação entre Brasília e o Comando Sul, porém, já é concreta em outras frentes. A JIATF-South, força-tarefa vinculada ao Southcom que agora tem seu escopo ampliado, forneceu inteligência para a Polícia Federal e a Marinha apreenderem drogas em uma embarcação pesqueira no Atlântico em julho.
Tensão de fundo com o rótulo de “terrorista” ao PCC
A nova fase da operação americana ocorre em meio a um pano de fundo mais amplo: desde o início do segundo mandato, o governo Trump adotou postura dominante em relação aos vizinhos latino-americanos e chegou a ameaçar usar força militar contra países que não colaborassem no combate ao narcotráfico e à influência de rivais como Rússia e China na região.
Essa postura já gerou reação da diplomacia brasileira. O Itamaraty chegou a alertar formalmente o Congresso de que a classificação do PCC como organização terrorista pelos Estados Unidos poderia ser usada como justificativa para uma ação militar em território brasileiro. É nesse contexto que o país aceita treinar ao lado das tropas americanas sem, no entanto, endossar publicamente a coalizão liderada por Washington.