Um novo relatório do UNAIDS aponta que cortes no financiamento internacional e o avanço de políticas que restringem direitos de populações vulneráveis ameaçam décadas de avanços contra o HIV.
O Brasil, referência mundial em acesso ao tratamento, está entre as 21 nações que registraram aumento nos casos de HIV, segundo o levantamento da ONU.
As mortes por Aids estão no menor patamar em 30 anos, mas a meta de eliminar a doença como ameaça à saúde pública até 2030 corre risco, alerta a organização.
Cortes no financiamento ameaçam avanços contra o HIV
Segundo a infectologista Beatriz Grinsztejn, presidente da IAS (International AIDS Society) e diretora do Laboratório de Pesquisa Clínica em IST e Aids do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz, a redução de recursos internacionais para programas de prevenção e tratamento é um dos principais fatores por trás do retrocesso apontado pelo UNAIDS.
A pesquisadora avalia que o enfraquecimento das políticas de prevenção, somado ao avanço de medidas que restringem direitos de grupos como a população LGBTQIA+, amplia a exposição ao vírus justamente entre quem mais precisa de acesso a testes, insumos de prevenção e medicamentos.
Por que o Brasil registra alta nos casos
Apesar de ser referência mundial em acesso ao tratamento antirretroviral, o Brasil está entre os 21 países que voltaram a registrar aumento de novos diagnósticos de HIV. Para Grinsztejn, o cenário reflete falhas na oferta de serviços de prevenção, como a PrEP (profilaxia pré-exposição), e a dificuldade de alcançar populações mais vulneráveis com estratégias de testagem e cuidado contínuo.
O relatório do UNAIDS reforça que, sem reforço no financiamento e nas políticas de prevenção, a meta global de eliminar a Aids como ameaça à saúde pública até 2030 dificilmente será alcançada, mesmo com as mortes pela doença no menor nível em três décadas.
Na mesma semana em que o levantamento foi divulgado, pesquisadores reunidos na 26ª Conferência Internacional sobre Aids, no Rio de Janeiro — evento presidido pela própria Beatriz Grinsztejn — anunciaram dois novos casos de remissão sustentada do HIV após transplantes de células-tronco, elevando para 13 o total mundial. O contraste evidencia como os avanços científicos seguem ocorrendo mesmo diante do risco de retrocesso nas políticas públicas de combate ao vírus.
