França, Reino Unido e Países Baixos atravessaram uma semana de calor excepcional no início de junho — e o verão no hemisfério norte sequer começou.
O episódio não é um acidente. Com o avanço das mudanças climáticas, ondas de calor se tornam mais intensas e frequentes, colocando países historicamente frios diante de um desafio estrutural: adaptar cidades, legislações e economias a uma realidade para a qual nunca foram projetadas.
O custo já é mensurável. A seguradora Allianz Trade estima perdas acumuladas de até 7% do PIB entre 2026 e 2030 nos países mais expostos — e só na França o prejuízo pode alcançar US$ 240 bilhões no período.
Produtividade, saúde e PIB: o calor já bate no bolso
O impacto na produtividade é direto e crescente. A partir de 30°C, cada grau adicional reduz em média 3% a produção horária de um trabalhador — e o efeito se agrava quando os termômetros ultrapassam os 35°C.
Os custos de saúde somam-se ao quadro. Mireille Chiroleu, professora de Economia do Meio Ambiente na Universidade Panthéon-Sorbonne e diretora de pesquisas da Paris School of Economics, lembra que os gastos com saúde e seguridade social disparam em ondas de calor, especialmente entre idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade.
“Estudos mostram que os custos decorrentes das ondas de calor na França entre 2015 e 2020 variaram entre €22 bilhões e €37 bilhões”, afirma Chiroleu. “É um valor altíssimo e muito maior do que o das perdas diretas de produção.”
Um estudo de 2025 da Universidade de Mannheim em parceria com o Banco Central Europeu reforça o alerta: somadas a secas e inundações, os fenômenos climáticos extremos podem custar €126 bilhões à economia europeia até 2029. Os mais vulneráveis são Espanha, Itália e França.
A dimensão do problema ficou evidente em Paris, na semana passada. A ministra da Transição Ecológica, Monique Barbut, recebeu jornalistas para uma coletiva sobre o tema num ambiente que o Le Monde descreveu como uma sala “fervendo”, com 36°C à sombra e ventiladores espalhando ar quente sobre os participantes suados.
O Alto Conselho para o Clima francês adverte que o país deve se preparar para um aumento de 4°C na média das temperaturas até o fim do século — uma perspectiva que torna urgente uma transformação profunda da infraestrutura urbana e das políticas públicas.
Adaptação atrasada e caixa cortado pela metade
A Allianz Trade aponta que apenas 19% dos prédios europeus estão adaptados para enfrentar o calor — resultado de décadas de construção voltada para reter calor, não dissipar. Mudanças estruturais são inevitáveis num continente com população envelhecida e infraestrutura de resfriamento subdesenvolvida.
Chiroleu defende uma hierarquia de intervenções: isolamento térmico de edifícios, arborização e soluções de sombreamento vêm antes do ar-condicionado, que pode “criar ilhas de calor na área externa e agravar as desigualdades, principalmente nos centros urbanos”. A agência francesa de Meio Ambiente e Energia (Ademe) estima que janelas e venezianas adequadas podem reduzir de 20% a 60% a necessidade de ar-condicionado nos edifícios.
Na esfera trabalhista, a Espanha instaurou uma licença climática de até quatro dias por ano para eventos extremos que impossibilitem o trabalho presencial. Ecologistas franceses defendem estender a medida para cobrir também as ondas de calor, às custas do poder público.
O cenário descrito não é isolado: a Organização Meteorológica Mundial projeta que a média global de temperaturas se mantenha em níveis recordes entre 2026 e 2030, com 75% de probabilidade de ultrapassar 1,5°C acima dos padrões pré-industriais — exatamente o período coberto pelo estudo da Allianz Trade sobre perdas no PIB europeu.
A maior barreira, porém, é orçamentária. Na França, o Fundo Verde para o Clima foi cortado de €2,5 bilhões em 2024 para €1,1 bilhão em 2025. “Isso é realmente muito pouco. Acho que outros países europeus estão enfrentando as mesmas deficiências de planejamento”, conclui Chiroleu.
