Três em cada dez armas registradas por Caçadores, Atiradores e Colecionadores (CACs) no Brasil estão com o registro vencido, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, divulgado nesta quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Do total de 1,6 milhão de armas em posse de CACs, cerca de 480 mil têm certificados desatualizados — um universo maior que o total de armas apreendidas pelas polícias estaduais em todo o país no último ano.
Da fiscalização do Exército à Polícia Federal
A Polícia Federal assumiu o controle sobre o registro dos CACs em julho de 2025, substituindo o Exército, que exercia essa função até então. Na época da transição, havia 1,5 milhão de armas registradas na categoria — número que já soma 1,6 milhão atualmente, segundo o Anuário.
O crescimento do arsenal de CACs remonta ao governo de Jair Bolsonaro (PL), entre 2019 e 2022, período em que as regras de acesso a armas de fogo foram flexibilizadas. Somente no último ano do mandato, o país registrou mais de 580 mil novas armas. Foi nesse contexto que a pistola 9mm, mais rápida que revólveres e mais potente que a 380, deixou de ser incomum e se tornou o modelo predileto entre os proprietários.
Alerta sobre armas fora do radar
Para David Marques, gerente de programas do FBSP, o volume de registros vencidos preocupa porque abre espaço para que armamentos estejam fora do controle oficial — vendidos sem transferência formal de posse, ou vítimas de furto, roubo e extravio. “É uma política que precisa ter atenção. Saiu um pouco do centro do debate nos últimos anos, mas ainda é um aspecto muito importante para podermos ter uma política de controle mais responsável com relação a esse armamento de civis”, afirma.
Apreensões avançam enquanto controle de CACs preocupa
Enquanto cresce o número de armas de CACs sem atualização, as polícias estaduais apreenderam 108.786 armas de fogo em 2025 — alta de 5,4% em relação ao ano anterior, segundo o mesmo levantamento do FBSP.
O tema ganhou repercussão recente com o caso do próprio Jair Bolsonaro, que teve seu Certificado de Registro de Armas (CAC) revogado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e viu a última arma de seu arsenal ser recolhida pela Polícia Federal após ser entregue voluntariamente por um morador do Rio Grande do Sul.
Casos como esse reforçam o alerta de especialistas: sem atualização constante dos registros, torna-se mais difícil rastrear armamentos que mudaram de mãos ou saíram de circulação sem comunicação às autoridades.