Saúde

Pedidos de autoexclusão de bets disparam 588% durante a Copa do Mundo

Ex-apostador que perdeu R$ 122 mil conta como venceu o vício e hoje evita até torcer pelo futebol
Taça e bola da Copa do Mundo com símbolo de alerta, representando a autoexclusão de apostas na Copa

O Brasil viu uma explosão nos pedidos de autoexclusão de plataformas de apostas online durante a Copa do Mundo. Dados da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, obtidos com exclusividade pela BBC News Brasil, mostram alta de 588% nas solicitações de bloqueio.

Entre 15 e 28 de junho, a Plataforma Centralizada de Autoexclusão recebeu 250.129 pedidos, média de 17.866 por dia — ante apenas 2.594 diários registrados em maio, antes do início do torneio.

O motivo do bloqueio mudou durante o Mundial

Antes da Copa, a principal razão apontada pelos usuários para pedir a autoexclusão era a perda de controle sobre o jogo. Durante o torneio, o motivo mais citado passou a ser o receio do uso irregular de dados pessoais por empresas de bets, segundo o levantamento da SPA.

Para Lucas Louback, da campanha “Brasil contra Bets”, o resultado expõe o alcance que as apostas ganharam durante o Mundial. “Os dados são alarmantes e mostram o quanto a compulsão por bets tem se espalhado na vida de milhões de brasileiros”, afirma. Segundo ele, a paixão do brasileiro pelo futebol passou a ser disputada pela publicidade das casas de aposta.

“Hoje eu nem gosto mais de futebol”

É o caso do engenheiro Bruno, que pediu autoexclusão há dois meses e evitou reuniões de família após o início da Copa. Ele jogou por dois anos, perdeu R$ 122 mil apostando em futebol e chegou a não conseguir pagar a mensalidade de sócio-torcedor do São Paulo. “Hoje eu nem gosto mais de futebol. Nunca mais fui no estádio”, desabafa.

Já para entidades do setor, como a ANJL e o IBJR, o salto nos pedidos deve ser lido com cautela: parte reflete o uso preventivo da ferramenta e sua maior divulgação, não necessariamente um aumento nos casos de jogo compulsivo.

Governo reforça regras para conter exposição às apostas

O crescimento dos pedidos de autoexclusão ocorre em meio a uma escalada de medidas do governo federal contra os efeitos da publicidade de bets. As novas regras citadas na reportagem — que obrigam as bets a alertar sobre o risco de dependência em toda propaganda — entraram em vigor em 17 de julho, dias antes de os dados de autoexclusão serem divulgados.

Antes mesmo dessas novas regras de publicidade, o governo já havia derrubado 56 mil sites de apostas ilegais e contabilizava quase um milhão de apostadores excluídos das plataformas.

O Brasil soma hoje pelo menos 25 milhões de apostadores cadastrados — pouco mais de 10% da população — e a receita bruta das bets legalizadas somou R$ 37 bilhões em 2025, tornando o país o quinto maior mercado de apostas do mundo, segundo a consultoria Regulus Partners.

Entidades ouvidas pela reportagem original avaliam que parte dos efeitos do Mundial sobre o jogo compulsivo só deve aparecer meses depois do fim da competição, à medida que apostadores tentem recuperar perdas. Os Jogadores Anônimos, que tinham cerca de 30 salas no Brasil há sete anos, já somam mais de 70 e se preparam para receber mais pessoas nos próximos meses.

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