O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enviou ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) um documento de 86 páginas com um compromisso inédito: garantir que o PIX não será conectado a sistemas de liquidação transfronteiriça “não ocidentais”.
A carta, entregue na quarta-feira (1º), pede ainda que as tarifas de 25% propostas pelo governo Trump contra exportações brasileiras sejam adiadas por 180 dias — prazo que empurraria qualquer decisão para depois das eleições presidenciais de 2026, nas quais o senador já se apresenta como pré-candidato pelo PL.
No documento, Flávio faz um “compromisso legislativo” — promessa formal a um órgão estrangeiro — de que o PIX não será integrado a sistemas fora do eixo ocidental. A declaração responde diretamente às acusações do USTR de que o sistema de pagamentos instantâneos criaria barreiras às empresas americanas do setor financeiro.
O senador argumenta ainda que o PIX não substitui os cartões de crédito e débito: instrumentos de pagamento privados oferecem crédito ao consumidor, financiamento, proteção a disputas e mecanismos de estorno — funções ausentes no sistema do Banco Central. Para reforçar o ponto, cita o FedNow, sistema de pagamentos instantâneos operado pelo próprio Federal Reserve americano, como paralelo direto ao PIX.
A carta se insere em uma disputa que escalou em junho, quando o USTR concluiu investigação enquadrando o PIX como prática “irracional” e acendeu o debate sobre soberania nos pagamentos digitais. Com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, o órgão propôs tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, citando também regulação de plataformas digitais, propriedade intelectual e desmatamento.
Audiência no USTR e aliados no mesmo palco
Na próxima terça-feira (7), o senador participará pessoalmente de audiência pública do USTR sobre as tarifas. Confirmados no mesmo evento estão o influenciador Paulo Figueiredo, aliado da família Bolsonaro, e a Confederação Nacional da Indústria (CNI), além de representantes do setor rural, varejista e de mineração.
O envio da carta é o passo mais recente de uma escalada: semanas antes, Flávio já havia pedido credenciamento para falar na audiência do USTR — o que levou o Itamaraty a cobrar desculpas dos “traidores da pátria”.
No mesmo dia e no mesmo prazo, o governo Lula também formalizou sua defesa perante o USTR. O chanceler Mauro Vieira assinou um documento rejeitando as acusações — o Itamaraty argumentou que nenhuma prática brasileira impõe barreiras reais ao comércio americano e que o USTR não comprovou qualquer caráter discriminatório nas políticas do país.
Para Flávio, o tarifaço tem produzido o efeito oposto ao desejado: em vez de pressionar Brasília a negociar, tem fortalecido politicamente o presidente Lula, que enquadra as ações americanas como ataques à soberania nacional. O senador alerta que as tarifas recompensariam o governo petista pela estratégia de obstruir negociações e converter a retaliação em vitória política interna em ano eleitoral.
Impacto potencial sobre exportações brasileiras
O governo brasileiro avalia que as duas investigações em curso — a da Seção 301, com 25%, e outra sobre trabalho forçado, que acrescenta 12,5% — podem ser cumulativas, elevando a taxação total para até 37,5% sobre parte dos produtos exportados aos EUA.
Antes de entrar em vigor, qualquer medida ainda precisa passar pelo processo de consultas públicas. O governo americano já sinalizou exceções para produtos estratégicos, como café, carne, frutas, aeronaves, fertilizantes e minerais críticos. No pano de fundo da crise permanece o episódio em que Eduardo Bolsonaro, no ano passado, agradeceu publicamente a Trump quando os EUA impuseram tarifas de 50% sobre produtos brasileiros.
